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domingo, 15 de maio de 2022

O joaquinismo e o culto do Divino Espírito Santo nos Açores

 


Apesar da colonização dos Açores só se ter iniciado a partir de 1432, quase 200 anos após o apogeu do joaquinismo, e do núcleo central da doutrina de Joaquim de Fiore já ter sido condenado em 1256 pelo papa Alexandre IV, há no arquipélago um claro reacender daquelas doutrinas, inspirando manifestações religiosas e acções rituais e simbólicas que perduram até aos nossos dias.



Seguramente por influência dos franciscanos espiritualistas, que foram os primeiros religiosos a instalar-se nas ilhas, partilhando com os primeiros povoadores as agruras da colonização, o culto do Divino Espírito Santo, então em apagamento na Europa devido à crescente pressão da ortodoxia religiosa, foi trazido para as ilhas. Aqui, em comunidades isoladas e sujeitas às pressões e incertezas da vida na margem do mundo conhecido, as crenças e ritos do Divino Espírito Santo ganharam raízes e recuperaram o seu vigor, reganhando um claro cunho joaquimita que ainda hoje está bem patente.


Os Açores, e as comunidades de origem açoriana, constituem assim os últimos redutos onde as doutrinas de Joaquim de Fiore sobrevivem, e, a julgar pelo recrudescer dos Impérios do Divino Espírito Santo, mantêm todo o seu vigor.

Sobre as origens do culto e dos rituais utilizados, pouco se sabe. A corrente dominante filia o culto açoriano ao Divino Espírito Santo nas celebrações introduzidas em Portugal pela Rainha Santa Isabel, que por sua vez as teria trazido do seu Aragão natal. De facto existem notícias seguras da existência do culto nos séculos XIV e XV em Portugal.

O seu centro principal parece ter sido em torno de Tomar (a Festa dos Tabuleiros parece ter aí raiz), localidade que era sede do priorado da Ordem de Cristo, a que foi confiada a tutela espiritual das novas terras, incluindo dos Açores. Outro centro relevante foi Alenquer, localidade onde, nos primeiros anos do século XIV, a rainha Santa Isabel terá introduzido em Portugal a primeira celebração do Império do Divino Espírito Santo, provavelmente influenciada por franciscanos espiritualistas, que ali fundaram o primeiro convento franciscano em Portugal. Pelo menos assim reza um velho pergaminho franciscano depositado na Câmara Velha daquela vila estremenha. A partir dali o culto expandiu-se, primeiro por Portugal (Aldeia Galega, na época Montes de Alenquer, Sintra, Tomar, Lisboa) e depois acompanhou os portugueses nos Descobrimentos.


As novas colónias, de início subordinado directamente ao prior de Tomar, e depois ao arcebispado do Funchal e ao novo bispado de Angra, estavam sobre a orientação religiosa da Ordem, a quem competia a nomeação do clero e a supervisão do seu desenvolvimento religioso.

Neste contexto, as referências ao culto do Espírito Santo aparecem muito cedo e de forma generalizada em todo o arquipélago, já que Gaspar Frutuoso, escrevendo cerca de 150 anos após o início do povoamento, já o menciona, indicando ser comum a todas as ilhas. Tal expansão apenas seria possível se contasse com a tolerância, ou mesmo o incentivo, da Ordem de Cristo. Também as referências a festejos feitas nas Constituições Sinodais da Diocese de Angra, aprovadas em 1559 pelo bispo D. frei Jorge de Santiago, demonstram que naquela altura já eram matéria a merecer a atenção da autoridade episcopal.

Tendo em conta que os povoadores vieram de múltiplas origens, desde o norte ao sul de Portugal, e ainda da Flandres e outras regiões europeias, o que aliás está bem patente na diversidade dos falares açorianos e das tradições e costumes das ilhas, e que excluindo a diocese, não existia no temporal qualquer forma de governo comum, a existência de um culto unificador, comum a todo o arquipélago, e com existência em fase tão precoce do povoamento, parece demonstrar que terá existido uma clara intenção e coordenação na sua introdução. Admitindo tal facto, não resta senão a presença franciscana como explicação para a propagação do culto e como veículo de introdução das doutrinas joaquimitas.

A existência de Irmandades do Divino Espírito Santo é já generalizada no século XVI. O primeiro hospital criado nos Açores (1498), a cargo da Santa Casa da Misericórdia de Angra, recebe a designação, ainda hoje mantida, de Hospital do Santo Espírito. A distribuição de carne e os bodos eram também já comuns em meados do século XVI.


E nesse mesmo século era celebrada a bordo das Naus do Brasil e das Armadas da India: em carta enviada para Itália desde Goa, o missionário jesuíta Fúlvio de Gregori, comunica o seguinte: Costumam os portugueses eleger um imperador pela festa de Pentecostes e assim aconteceu também nesta nau S. Francisco. Com efeito, elegeram um menino para imperador, na vigília de Pentecostes, no meio de grande aparato. Vestiram-no depois muito ricamente e puseram-lhe na cabeça a coroa imperial. Escolheram também fidalgos para seus criados e oficiais as ordens, de modo que o capitão foi nomeado mordomo da sua casa, outro fidalgo foi nomeado copeiro, enfim, cada um com o seu oficio, à disposição do imperador. Entraram nisto até os oficiais da nau, o mestre, o piloto, etc. Depois, no dia de Pentecostes (ou Páscoa do Espírito Santo), trajando todos a primor, fez-se um altar na proa da nau, por ali haver mais espaço, com belos panos e prataria. Levaram, então, o imperador à missa, ao som de música, tambores e festa e ali ficou sentado numa cadeira de veludo com almofadas, de coroa na cabeça e ceptro na mão, cercado pela respectiva corte, ouvindo-se entretanto as salvas de artilharia. Comeram depois os cortesãos do imperador e, por fim, serviram toda a gente ali embarcada, à volta de trezentas pessoas.

A partir daí, e particularmente após o início do século XVIII, o culto do Divino Espírito Santo assume-se como um dos traços centrais da açorianidade, sendo o verdadeiro traço cultural unificador das populações das diversas ilhas. Com a imigração açoriana o culto é levado para o Brasil, onde já no século XVIII existia no Rio de Janeiro, na Baía e nas zonas de colonização açoriana de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Pernambuco. No século XIX é levado para o Hawaii, para o Massachusetts e para a Califórnia.


Hoje o culto açoriano do Divino Espírito Santo está em claro crescimento, tanto nos Açores como nas zonas de imigração açoriana, nomeadamente as costas leste e oeste dos Estados Unidos e a Província do Ontário, Canadá. Com o renascer da identidade açoriana no sul do Brasil, os festejos do Divino revigoraram-se também aí.

sábado, 14 de maio de 2022

Manuel Zerbone



Manuel Zerbone Júnior (Horta, 7 de Novembro de 1856 — Horta, 29 de Março de 1905) foi um professor, escritor e publicista açoriano, de origem sarda ou corsa, que se notabilizou como um dos principais motores do movimento intelectual que surgiu na ilha do Faial na segunda metade do século XIX.


Manuel Zerbone nasceu na cidade da Horta, ali concluindo os seus estudos primários. Depois de alguns estudo na sua ilha natal, partiu para a cidade do Porto, onde concluiu o ensino secundário. Durante a sua estadia naquela cidade conheceu Manuel Teixeira Gomes, Luís Botelho e José Maria de Queirós Veloso. Estudou seguidamente em Lisboa, frequentando o Curso Superior de Letras, mas não concluiu qualquer curso superior.

Regressou à ilha do Faial onde se fixou e foi professor de Francês no Liceu da Horta. Simultaneamente iniciou um percurso de publicista e jornalista, que o levaria a colaborar com múltiplas iniciativas editoriais na ilha do Faial, noutras ilhas dos Açores e no exterior do arquipélago. Passou também a ser um dos grandes impulsionadores do movimento intelectual que então surgiu na ilha, centrado em torno de uma tertúlia que incluía Florêncio Terra, Manuel Joaquim Dias, Rodrigo Guerra e Henrique das Neves.

O grupo fundou o Grémio Literário Faialense e o O Açoriano, um semanário com espaço dedicado às letras, onde publicam textos predominantemente com o cunho do romantismo, mas onde surgem sinais de novidade na colaboração, como contista, de Florêncio Terra e, sobretudo de Manuel Zerbone, este com umas prosas poéticas onde se patenteia, sintomaticamente, a influência do criador do poema em prosa, Aloysius Bertrand de "Gaspard de la Nuit".  Para além da poesia e da crónica, Manuel Zerbone afirmou-se como contista e romancista, tentando também o teatro.


Sobre as crónicas de Manuel Zerbone, o crítico literário e estudioso da literatura açoriana Pedro da Silveira escreveu: Impõe-se publicá-las na totalidade e, à parte, os seus contos e os poemas em prosa. Discípulo, nos poemas em prosa de Aloysius Bertrand e de Baudelaire, é uma das figuras mais interessantes da literatura açoriana do seu tempo.  O mesmo crítico considera que numa primeira abordagem a obra de Manuel Zerbone parece fútil, por vezes um mero jogo de palavras habilidosamente tecido mas sem fundo. Não é assim, porém. As aguarelas impressionistas deste discípulo de Aloysius Bertrand e de Baudelaire do "Spleen" de Paris revelam um verdadeiro poeta, delicado e de funda sensibilidade.

Marcelino de Almeida Lima, outro dos membros da tertúlia e também colaborador n´O Açoriano,escreveu que Manuel Zerbone tinha uma alma de artista, verdadeiro esteta em tudo, no julgar e no praticar, até nas cousas mais comezinhas da vida, destacava-se no círculo dos intelectuais; e muito poderia ter-se salientado, porque condições não lhe faltavam, se não fosse a incapacidade para se amarrar ao trabalho de cinzelar obra de vulto. Ernesto Rebelo, outro dos membros da tertúlia, diz que Zerbone tinha um estilo ligeiro e maleável, adequado ao predilecto género de literatura que em França teve por iniciador Júlio Janin e no qual, em Portugal, tanto se distingue Júlio César Machado – o folhetim, as crónicas alegres.


Depois de uma carreira como professor liceal na ilha do Faial, faleceu na Horta em 1905, com apenas 49 anos de idade.



quinta-feira, 12 de maio de 2022

Alberto Romão Madruga da Costa

 

Alberto Romão Madruga da Costa  (Horta, 15 de Abril  de 1940 – Ponta Delgada, 14 de Novembro de 2014) foi um político açoriano. Militante do PSD, foi deputado à Assembleia Regional dos Açores e Secretário Regional dos Transportes e Turismo no I e no II Governo Regional dos Açores, tendo ocupado ainda por duas vezes a presidência do parlamento açoriano, entre 1978 e 1979 e entre 1991 e 1995.


Nascido na cidade da Horta, Madruga da Costa realizou o estudos básicos e secundários nessa cidade e depois em Ponta Delgada. Ingressou na Universidade de Lisboa, transferindo-se para a Universidade de Coimbra, onde fez o 4.º ano de Filologia Germânica.

Regressada ao Açores ingressou nos quadros do Banco Português do Atlântico, desenvolvendo uma carreira como bancário na cidade da Horta. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 foi militante do PPD/PSD, ingressando na vida política como deputado regional, pelo círculo da ilha do Faial, cargo que exerceu durante seis legislaturas consecutivas (24 anos), entre 1976 e 2000.


Entre 1978 e 1995, foi eleito, em três períodos, presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, tendo também assumido o cargo de vice-presidente daquele Parlamento e de líder da bancada do PSD. No âmbito partidário, desempenhou vários cargos, nomeadamente opresidente da Comissão Política do Faial, de vice-presidente da Comissão Política Regional e de presidente da Mesa do Congresso em diversas ocasiões.

Foi Secretário Regional dos Transportes e Turismo no I e no II Governo Regional e Presidente do Governo Regional dos Açores, na sequência da demissão de Mota Amaral, de 20 de outubro de 1995 a 9 de novembro de 1996. Durante este período distinguiu-se por um perfil discreto e pouco interventivo.


Em junho de 1995, Madruga da Costa foi agraciado pelo Presidente da República com a grã-cruz da Ordem do Mérito4 e, em maio de 2006, a Assembleia Regional atribuiu-lhe a Insígnia Autonómica de Valor.


Afastado da vida política ativa na sequência das eleições legislativas de 1996, Madruga da Costa teve uma breve incursão na comunicação social, como diretor, durante cerca de um ano, do jornal Correio da Horta, propriedade da Diocese de Angra e entretanto extinto.


Foi nomeado administrador não executivo da EDA - Empresa de Electricidade dos Açores.



terça-feira, 10 de maio de 2022

Solar da Mafoma na ilha de São Miguel Açores

 


 

DESCRIÇÃO: Unidade paisagística composta por uma casa solarenga, anexos e infra-estruturas de apoio, fontanário, fábrica de chá, jardins e quinta para cultivo de árvores de fruto.

A habitação é composta essencialmente por dois corpos de planta rectangular, com dois pisos, formando um "L": o corpo principal, de maiores dimensões, disposto ao longo da rua e o corpo da cozinha que é perpendicular ao primeiro. No corpo maior, a eixo, há um torreão que se destaca na fachada formando um terceiro piso.

A fachada principal organiza-se segundo um eixo de simetria, está dividida em cinco módulos separados por pilastras e fica enquadrada em cada extremidade por um corpo com balcão. O balcão do lado esquerdo acompanha a empena e tem acesso pelo jardim de lazer, por meio de uma escada em pedra. O balcão do lado direito, mais largo e pouco profundo, só tem acesso pelo interior da casa.

O acesso ao interior faz-se por uma grande porta axial que faz a ligação ao recinto posterior através de um átrio de grandes dimensões, com uma arcada em pedra, onde se situam duas escadas simétricas para acesso ao piso superior. A porta principal é encimada por duas janelas de sacada, com varanda comum, entre as quais se situa uma pedra de armas.

O recinto posterior, relvado, fica definido pelo corpo principal a sudoeste, pelo corpo da cozinha a sudeste, pelos corpos das cavalariças e arrumos a noroeste e pelo muro da quinta a nordeste. Do lado noroeste dos edifícios situa-se o jardim de recreio. Do lado oposto situa-se um terreiro com algumas árvores de fruto em torno de um "cafuão". Ao lado direito da habitação encostam três corpos, voltados para o terreiro, do qual estão parcialmente separados por um muro. Na extremidade sudeste deste terreiro, encostada ao muro da propriedade, situa-se a antiga fábrica de chá, actualmente em ruínas. Na parte posterior de todo este conjunto situa-se a quinta. As estruturas de apoio à fábrica, nomeadamente os antigos telheiros de secagem do chá, prolongam-se pela quinta em toda a extensão sudeste do muro que limita a propriedade. Todos os recintos exteriores são rectangulares e murados.

Os edifícios, de um modo geral, são construídos em alvenaria de pedra rebocada e pintada de amarelo, excepto os socos, os cunhais, as pilastras, as cornijas, as faixas horizontais, as molduras dos vãos, as balaustradas dos balcões, as escadas e os elementos decorativos que são em cantaria à vista. As coberturas variam entre as duas e as quatro águas, em telha de meia-cana tradicional, com telhão na cumeeira e beiral duplo sobre as fachadas principais. Algumas estruturas de apoio têm cobertura de uma só água.

A quinta está dividida em quatro "quartéis" delimitados por sebes altas de metrosíderos e cameleiras. Na intersecção das ruas divisórias há uma mesa de pedra ao centro e um banco em cada vértice dos quartéis. A rua principal, no eixo do solar, dá acesso ao antigo fontanário parietal que se situa no muro nordeste da propriedade. O fontanário é enquadrado, de cada lado, por uma coluna e dois colunelos embebidos e é rematado por uma cornija com pináculos embebidos nos extremos. É encimado por um elemento decorativo (sucedâneo de um par de volutas) que enquadra uma lápide com a data "1789". Ao centro do fontanário, acima das bicas e enquadrado pelas pilastras e pela cornija, há uma edícula que contém um registo de azulejo (amarelo, azul e branco) e é ladeada por duas flores em relevo.



segunda-feira, 9 de maio de 2022

José Armas Gomes da ilha das Flores Açores

 

José Armas Gomes, nasceu na ilha das   Flores em 1943.

Dedicou-se profissionalmente à lavoura e à pesca.

 Em 1969 foi nomeado Regedor da Freguesia, cargo que manteve até à sua extinção em 1976. No mesmo ano, foi eleito Presidente da Direção da Cooperativa de Lacticínios da Fazenda.

Depois da Autonomia da Região colaborou na fundação da União das Cooperativas de Lacticínios da Ilha das Flores, onde a cooperativa da Fazenda ficou integrada.

Em 1987 foi o Presidente da comissão instaladora da Associação Agrícola da Ilha das flores, tendo sido eleito para Presidente da Direcção durante 3 mandatos.

Foi igualmente Presidente da Federação Agrícola dos Açores, durante cerca de um mandato tendo pertencido à Direcção Nacional da Confederação Agrícola de Portugal.


 Exerceu funções como deputado na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, pelo Partido Social Democrata, entre Junho de 93 e Abril de 94.



sábado, 7 de maio de 2022

O Solar de Lalém freguesia da Maia ilha de São Miguel Açores

 


O Solar de Lalém



Um Solar que é História

A história da Maia está em parte resumida ou testemunhada pelo Solar de Lalém. Edificado no sítio onde terá existido uma primeira ermida de S. Sebastião, logo nos tempos primordiais do povoamento, o actual conjunto é composto por elementos arquitectónicos de três séculos.

A capela actual, que mantém a invocação do Santo mártir, foi como que encastoada no corpo habitacional do solar, e data de 1687, enquanto que a entrada para o recinto se faz por um magnífico portal, com vários elementos decorativos, construído em 1742. A habitação resulta de obras concluídas em 1850, e é uma das mais bem conservados e mais belas mansões do tipo arquitectónico característico do ciclo da laranja. 

Tendo sido a Maia, desde sempre, uma zona agrícola privilegiada, verifica-se, pela arrematação dos dízimos de um quarto de maquia em 1786, que ela se mantinha entre as principais produtoras de trigo da ilha, pois que o seu dízimo foi arrematado por cinco moios e quarenta alqueires, o que faz supor que o arrematante terá previsto uma produção de pelo menos cerca de quatrocentos moios, só superada por Vila Franca, Ponta Delgada, Água de Pau, Povoação e Ribeira Grande – esta, de longe, a maior contribuinte, com quarenta e oito moios e cinco alqueires. E no entanto, nesse ano, dos lugares que anteriormente lhe estavam sujeitos, já só fazia parte da Maia a Lomba da Maia, que haveria de passar a freguesia na primeira década do século XX, o que com as Furnas acontecera pouco antes e, com os Fenais da Ajuda, a meados do século XVI.

É no centro da zona agrícola mais privilegiada da Maia, quer pela natureza chã dos terrenos quer pela sua fertilidade, devida à presença de cinzas vulcânicas recentes, que se situa o Solar de Lalém, cujo nome se deve ao facto de ficar “lá além” da freguesia, no lado de lá da ribeira, ou grota, da Pedra Queimada. O proprietário que fez a última ampliação e remodelação, em 1850, mantendo com perfeita harmonia elementos anteriores, foi o morgado João Silvério Vaz Pacheco de Castro, membro da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, cuja função principal foi a de seleccionar, em países estrangeiros, novas espécies vegetais de interesse económico que pudessem compensar a perda da importância do comércio da laranja.

Este solar chegou ao último quartel do século XX ameaçando ruína. Quem se lançou à aventura da sua recuperação, concluída em 1988, foi Afonso Moniz Quental, que o transformou numa excelente unidade de turismo de habitação, valorizada por mobiliário antigo que usos modernos haviam condenado à destruição.


No Solar de Lalém funcionou, até à sua passagem para a posse dos actuais donos – o casal alemão Gerard e Gabriela Hochleitner, que o têm mantido em excelentes condições – a Associação de Cultura e Recreio a Balada que, entre outros eventos culturais de assinalável interesse, organizou os três primeiros encontros de escritores açorianos, vários de cantadores ao desafio, e homenageou grandes nomes da literatura açoriana, como Martins Garcia, Álamo Oliveira ou Onésimo Almeida.

Atendendo à excelência das suas características, o Solar de Lalém, incluído no Inventário do Património Imóvel dos Açores, está proposto para ser classificado como de interesse de ilha.


Daniel de Sá





sexta-feira, 6 de maio de 2022

CASA DAS CALHETAS - CALHETAS, cidade da Ribeira Grande ilha de São Miguel Açores

 

Situada na costa norte da ilha de S. Miguel, à beira-mar, a Casa das Calhetas é uma construção do séc. XVIII (1723). Solarenga na traça, foi desde sempre casa de morgados. As vistas ao Norte-Nordeste oferecem um cenário impressionante sobre o Atlântico, a costa Norte da ilha e a Serra da Lagoa do Fogo. As vistas ao Sudoeste, abrem um cenário completamente diferente sobre o único convento de clausura dos Açores e o magnífico jardim centenário da casa. Decorada com simplicidade, guarda o sabor das casas abastadas do meio rural açoriano.

A moradia tem uma estrutura arquitectónica das casas abastadas do meio rural açoriano da época, com jardim de estilo inglês, com lago e campo de cróquete. O pátio interior, em pedra de lavoura, possui uma escadaria dupla de estilo colonial espanhol. No primeiro andar situa-se a parte nobre da casa onde se encontram os quartos, a sala de jantar, uma sala de estar e a biblioteca, sendo os soalhos em madeira de pinho resinoso e os tectos em estuque, com estrutura acaixotada. Neste piso existem dois halls com soalho em pedra de lavoura, lareira com azulejos da Lagoa e cozinha com acesso directo aos alpendres.

Todas as salas têm varanda em ferro fundido com vistas para a bala da Ribeira Grande. As vistas para norte e nordeste oferecem um cenário impressionante sobre o Atlântico, a costa norte da ilha e a serra da Lagoa do Fogo, enquanto as vistas para sudoeste desvendam um cenário que inclui o único convento de clausura dos Açores e o jardim da casa.


O edifício tem várias adegas, onde se fazia antigamente o vinho, com estrutura típica das adegas da Ribeira Grande.