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sábado, 8 de janeiro de 2022

A lenda da Ponta Ruiva ilha das Flores Açores

Lá pelo século XVI, certo dia um pescador de uma povoação do norte da ilha das Flores andava na costa a apanhar peixe, como era seu costume. Começou a ouvir uma voz muito bonita de mulher a cantar por perto, mas numa língua que não conhecia. Cismou que por ali havia uma sereia. Logo espalhou pelo povoado a novidade e, pela maneira que se falava da sereia, todos ficaram a pensar que ela encantava os homens.


O pescador não pensava noutra coisa e, logo que pode, poucos dias mais tarde, voltou à pesca, sonhando com a ideia de que havia de ver a sereia.


Tinha acabado de lançar o anzol ao mar, quando começou a ouvir o canto que tanto o perturbava. Recolheu logo a linha e pôs-se a escutar com muito cuidado e a seguir o som. Por fim, encontrou a dona de tão melodiosa voz. Não era uma sereia, como ele pensava, mas uma linda mulher de olhos azuis, pele clara e sardenta e cabelos ruivos. Muito assustada, ao começo, nada disse, mas por fim o pescador ficou a saber a sua história. Era irlandesa e tinha escapado de um navio pirata, atirando-se ao mar quando avistou terra próximo.

O pescador ficou ainda mais encantado e, depois de conquistar a confiança da mulher, voltou para casa trazendo consigo a mulher mais bela que alguma vez a gente do lugar tinha visto. Algum tempo mais tarde, o pescador casou com a “sereia” e deles nasceram muitos filhos, todos de olhos azuis e ruivos como a jovem irlandesa.


Assim, aquele lugar da ilha das Flores passou a chamar-se, por causa da cor dos cabelos de muitos dos seus habitantes, Ponta Ruiva, e ainda hoje ali há muitas pessoas de pele clara, sardentas e de cabelos ruivos, como a jovem irlandesa que um dia ali apareceu.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Peste na ilha Terceira Açores

 

 A epidemia teve origem num caixão com fazenda que desembarcara na cidade e fora aberto na rua da Esperança, numa casa situada no local onde está o Teatro Angrense. Toda a ilha foi invadida pelo mal que diferia do que no continente já fora conhecido pela mesma designação; porque, além dos bubões, conta o padre Maldonado, «começava e acabava a vida a espirrar muito».


Em Julho e Agosto se desenvolveu de tal modo que foi necessário estabelecer casas de saúde. Foram enfermeiros, cuidando dos doentes carinhosamente, os padres Franciscanos que, com caridade evangélica, tratavam, amezinhando e curando os enfermos. Faleceram, em toda a ilha, cerca de 7.000 pessoas de ambos os sexos, grandes e pequenos, cujos cadáveres se sepultaram nas igrejas, adros, cemitérios e cerrados. Durou esta calamidade até 20 de Janeiro de 1600. Tomaram as Câmaras da ilha, por padroeiro, o mártir São Sebastião, fundando-se ermidas próprias que foram desaparecendo com os terramotos e substituídas por edifícios públicos.



Durante muitos anos se fazia em toda a ilha a festividade de São Sebastião, a expensas das Câmaras, acorrendo povo de toda a parte, aterrorizado ainda pelo que havia presenciado.

O cemitério e se encontra a ermida do Livramento, que dantes se chamava de São Roque.

Nos primeiros anos vinham romarias a visitar o lugar onde tantos dos seus jaziam.

 Gervásio Lima, Breviário Açoreano, p. 131, Angra do Heroísmo, Tip. Editora Andrade, 1935.rio, onde se enterrou a maior parte dos mortos.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Joaquim Moniz de Sá Corte-Real e Amaral

 


Joaquim Moniz de Sá Corte-Real e Amaral Com nasceu  na cidade de Angra do Heroísmo a 28 de Agosto de 1889 e faleceu em  Lisboa a  15 de Agosto de 1987.  Foi um pedagogo, político e intelectual açoriano.


Distinguiu-se pela publicação de múltiplos artigos de carácter histórico e biográfico, parcialmente reunidos em volume de edição póstuma. Dirigente local da União Nacional, entre outras funções, foi procurador à Câmara Corporativa em representação dos municípios dos Açores, presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e governador civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo.

Joaquim Moniz de Sá Corte-Real e Amaral nasceu na freguesia da Sé, a 28 de Agosto de 1889,  filho de António Aldino do Amaral e de Isabel Moniz e Sá Corte-Real e Amaral, uma família ligada à pequena aristocracia local. Depois de realizar os seus estudos primários na escola pública local, frequentou estudos secundários nos Liceus de Angra do Heroísmo, Horta e Ponta Delgada.

Sem grande sucesso nos estudos, em 1915, com 25 anos de idade, alistou-se como voluntário no Exército Português, concluindo com sucesso o curso de oficial miliciano de infantaria, atingindo o posto de Tenente. Quando em 1918, no contexto da Primeira Guerra Mundial foram enviadas forças para Angola com o objectivo de conter uma eventual invasão alemã a partir do Sudoeste Africano, integrou a força expedicionária que foi enviada para o Planalto de Benguela. Permaneceu naquela região africana até Fevereiro de 1920, assumido durante algum tempo o comando das forças.


A partir de 1920 é colocado na repartição de justiça militar de Coimbra, o que lhe permite retomar os estudos e concluir, em 1922, o curso de Ciências Histórico-Geográficas da Universidade de Coimbra.

Em 1924 casou com Judite Nunes da Costa (natural de Angra do Heroísmo) e no ano seguinte abandonou a vida militar activa, sendo nomeado professor provisório do Liceu José Falcão de Coimbra, lugar que manteve até 1927.

Nos anos de 1928 e 1929 é professor provisório do Liceu Dr. Júlio Henriques, também de Coimbra, ao mesmo tempo que frequenta o curso da Escola Normal Superior de Coimbra, que conclui obtendo 15 valores no exame de estado.


No ano lectivo seguinte foi nomeado professor efectivo do Liceu João de Deus, na cidade de Faro, iniciando um percurso que o levaria a Beja (1930 e 1931) e depois de volta à sua cidade natal, já que em Fevereiro de 1931 foi nomeado reitor do Liceu Padre Jerónimo Emiliano de Andrade da cidade de Angra do Heroísmo.

Fixa-se então na cidade de Angra, iniciando, a par da carreira docente, uma relevante carreira política que o levaria aos lugares cimeiros da administração distrital e autárquica e a procurador à Câmara Corporativa  do Estado Novo.


Partidário da solução ditatorial do saída do Golpe de 28 de Maio de 1926, aderiu à União Nacional, de cuja comissão distrital foi membro a partir de 1932. Esta sua adesão ao ideário da Revolução Nacional abriu-lhe uma rápida sucessão de nomeações para os lugares cimeiros da governança angrense: provedor da Santa Casa da Misericórdia (1931-1933); presidente da comissão administrativa da Câmara Municipal (1933) e finalmente governador civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo (28 de Abril de 1933 a 3 de Abril de 1936).

Ao ser substituído no lugar de governador civil, que o decreto que o exonera afirma ter exercido com zelo dedicação e patriotismo, é reconfirmado como reitor do Liceu, cargo que exerce até 1940. Entretanto, aparentemente por desavenças com Cândido Pamplona Forjaz, que passara a chefiar a União Nacional em Angra do Heroísmo, é relegado para a esfera autárquica, deixando definitivamente a chefia do Distrito. Assim, em 1939, regressa à presidência da comissão administrativa da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, assumindo a presidência da Câmara Municipal no ano imediato.


Foi nestas funções de presidente nomeado da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, cargo que exerceria até 1953, que desenvolveu a sua principal acção política. Acumulando o cargo com o de procurador à Câmara Corporativa (II e V Legislaturas)  em representação dos municípios dos Açores e de presidente da Junta Autónoma dos Portos do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo (1943-1946), o "Dr. Corte-Real", nome pelo qual era conhecido, dominou a política local durante o período delicado da Segunda Guerra Mundial e dos anos imediatos, período em que a partir de 1943 a cidade e a ilha tiveram de conviver com a presença de forças expedicionárias portuguesas e britânicas e com o nascimento da Base das Lajes.

Durante o período em que foi governador civil e presidiu à Câmara Municipal, apesar da penúria dos meios disponíveis, empreendeu obras que ainda hoje marcam a face da cidade, como a construção da Escola Primária Infante D. Henrique (1933-1945), a pavimentação de muitas das ruas da baixa citadina, o calcetamento artístico da Praça Velha, a abertura do Largo Prior do Crato. Foram obras que nalguns casos levaram à demolição de alguns edifícios históricos (casos do Convento da Graça e do Pátio dos Estudos dos Jesuítas). Outras obras importantes foram o abastecimento de água às freguesias vizinhas da cidade (já que as outras só o tiveram na década de 1970).


Em 1953 voltou ao Liceu, retomando as suas funções docentes e iniciando um período de colaboração com a imprensa local, em especial com os jornais A União e A Pátria, e de participação em múltiplas iniciativas culturais. Era um professor popular entre os alunos, que ensinava recorrendo ao exemplo de personagens históricas num ensino com forte carga ideológica. Jubilou-se em 1959 por atingir o limite de idade.


A partir de 1962 fixa-se em Lisboa, onde tinha família, ali falecendo em 15 de Agosto  de 1987.




segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Lenda da Poça das Asas na ilha do Faial Açores




A Lenda da Poça das Asas é uma lenda antiga, original da ilha do Faial, arquipélago dos Açores e encontra-se ligada à existência da Poço das Asas e aos encantos que a envolvem.

Segundo reza esta lenda, existia, em tempos idos, na pequena povoação de Chão Frio, localidade da Praia do Almoxarife, uma “formosa camponesa de pele morena, rapariga à qual não faltavam pretendentes”, no entanto, afirma a lenda, esta já “tinha dado o corpo e alma a um fidalgo da Vila que em determinadas noites, vinha ocultamente aguardá-la neste sítio da Poça das asas”, pelo que não queria mais ninguém.

Como não podia deixar de ser, nas trágicas histórias de amor, os dois apaixonados foram descobertos. Os restantes pretendentes juntaram-se e juraram destruir aquele amor. Assim numa noite, acontecendo que a rapariga esperava ainda sozinha o seu apaixonado, os seus pretendentes a mataram.

Segundo reza a lenda ”No dia seguinte de madrugada, quando a gente da povoação veio buscar água, encontraram o cadáver da camponesa e bem assim o Poço, contendo na sua superfície algumas penas brancas, como a geada”, penas essas que ainda nossos dias, quando faz tempo galado se foram nas águas do local.

Informa a lenda que dos assassinos, dois fugiram, enquanto que o terceiro, cheio de remorsos, “dentro de pouco enlouqueceu e vinha quase diariamente sentar-se nestas pedras, ficando horas e horas seguidas junto à superfície água, no fundo da qual parecia buscar o arrependimento.”


Àqueles que passavam, dizia que "viessem ver as penas saídas das asas de um anjo que ali estavam à superfície da água, e acusando-se do seu crime, acrescentava que a camponesa quando fora morta trazia no seio uma criança e que o anjinho, ao despedir-se dolorosamente da vida, havia deixado cair algumas penas das asas na superfície da água”.

Assim, entre o mito e misticismo, nasceu esta lenda, seja fruto ou não da narrativa de um louco ou simplesmente de um povo encantado pelo local, certo é que a lenda perdura e perdurará quanto houver alguém para a contar.



sábado, 1 de janeiro de 2022

António de Medeiros Franco

 

António de Medeiros Franco  nasceu na Achada do Nordeste a 12 de Março de 1882  e faleceu na Ribeira Grande a 21 de Março de 1959 ilha de São Miguel Açores.  Foi bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra (1911), advogado e político, ligado ao Partido Republicano Português e depois ao Partido Democrático.  Considerado orador eloquente, poeta inspirado, grande escritor e músico notável, regeu o Órfeon Académico de Coimbra, em Paris. Foi deputado e senador durante a Primeira República Portuguesa.

Formado em Direito, exerceu a advocacia e foi notário na Ribeira Grande, localidade onde se fixou e residiu até falecer.


Militante republicano, entre outras funções políticas de relevo, foi administrador do concelho da Ribeira Grande e comissário da Polícia.


Foi deputado eleito pelo círculo eleitoral de Ponta Delgada ao Congresso da República no período de 1915 a 1917.


Em 1917 foi nomeado governador civil do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, exercendo o cargo entre 21 de Setembro e 13 de Dezembro de 1917, sendo destituído com o advento do sidonismo.


Foi Senador da República na legislatura de 1922 a 1925, sendo na altura considerado um dos influentes do Partido Democrático e convidado para Ministro.


Uma das suas propostas que teve vencimento foi a ampliação dos poderes das Juntas Gerais dos Distritos Autónomos, permitindo-lhes vender bens sem autorização prévia do Governo para aquisição de material hospitalar.

Foi considerado pelos seus conterrâneos um espírito brilhante e orador de renome e Ruy Galvão de Carvalho classifica-o como poeta de grande talento e poeta do sentimento.


Para além de ser lembrado no toponímia da Ribeira Grande e do Nordeste, a escola do primeiro ciclo da sua freguesia natal, a Achada do Nordeste, tem o seu nome.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Teotónio Machado Pires

 

Teotónio Machado Pires  nasceu na  freguesia da Terra Chã ilha Terceira  a  7 de Novembro de 1902  e faleceu em Angra do Heroísmo a 2 de Abril de 1993.Foi um político e jurista açoriano.

Entre outras funções, foi chefe da secretaria da Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, deputado pela União Nacional à Assembleia Nacional do Estado Novo e governador civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo (de 1959 a 1973). Foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira, tendo presidido àquela instituição entre 1958 e 1960. Notabilizou-se na assistência aos sinistrados da crise sísmica dos Rosais, razão pela qual a vila de Velas e a freguesia dos Rosais o lembram na sua toponímia. Também a vila de Santa Cruz da Graciosa e a freguesia da Terra Chã têm arruamentos com o seu nome.

Presidiu também à Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, à Comissão Regional de Turismo de Angra do Heroísmo e à direcção do Montepio Terceirense. Foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a 15 de Junho de 1962 e Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo a 31 de Maio de 1973.


Foi pai do Prof. Doutor António Manuel Bettencourt Machado Pires, professor catedrático de literatura e cultura portuguesa e durante muitos anos reitor da Universidade dos Açores e Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública a 23 de Agosto de 1988.



sábado, 25 de dezembro de 2021

Rui Galvão de Carvalho

 

Rui Galvão de Carvalho  nasceu em Rabo de Peixe a 3 de Novembro de 1903  e faleceu em  Ponta Delgada a 29 de Abril de 1991. Foi um poeta, escritor, ensaísta e professor açoriano que se notabilizou pelo seu estudo da vida e obra de Antero de Quental, sendo considerado um dos bons anterianistas. Deixou uma vasta e diversificada obra literária, em parte publicada sob o pseudónimo de Abd-el Kader.

Destinado a seguir uma carreira na advocacia, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas em 1922, quando já frequentava o 3.º ano do curso, transferiu-se para a Universidade de Coimbra, matriculando-se então no curso de Ciências Filosóficas, em que se licenciou em 1929.


Durante a sua passagem por Coimbra foi aluno do anterianista Joaquim de Carvalho, professor que o introduziu no estudo da obra de Antero de Quental e com quem manteria uma profícua e longa relação.  Também durante esse período aproximou-se das ideias do Integralismo Lusitano e de António Sardinha, cujas conceções e ideais se mostraram de primordial importância na sua formação intelectual e moral. Essas influências são «indispensáveis para compreender a personalidade do pedagogo, do poeta, do anterianista, do açorianista» que depois se revelaria. Outra importante influência deste período foi a amizade que manteve com Bernardo de Vasconcelos, seu condiscípulo em Coimbra.


Iniciou a sua colaboração com a imprensa também ainda enquanto estudante em Coimbra, o mesmo acontecendo com a sua atividade enquanto conferencista. Já em 1927 proferia uma conferência sobre António Sardinha no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra, e tinha importante participação nas atividades daquele centro.

Em 9 de abril de 1981, foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada , que lhe foi entregue em sessão solene realizada na Universidade dos Açores e presidida pelo general António Ramalho Eanes, então Presidente da República. A distinção foi conferida em reconhecimento do seu relevante contributo na investigação e no ensino.

Em 1986 ofereceu à Universidade dos Açores um importante espólio que incluía várias traduções dos poemas de Antero, ensaios críticos, correspondência literária diversa, obras de autores açorianos, revistas e jornais com artigos de temática anteriana. Este espólio ficou a constituir a Sala Antero de Quental, na qual foi também colocado um busto de Antero de Quental, da autoria de Canto da Maia, um retrato a óleo do poeta pintado por Raposo Marques e um quadro a óleo de inspiração anteriana da autoria de Luísa Athayde. Todo este valioso espólio foi destruído pelo incêndio que deflagrou no edifício da reitoria e que destruiu totalmente o imóvel.

Para além de ser lembrado na toponímia de várias povoações açorianas, é o patrono da principal escola de Rabo de Peixe, a Escola Básica Integrada Rui Galvão de Carvalho.