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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Maria da Luz Gomes, a primeira mulher a usar calças na ilha das Flores Açores


Nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 30 de Janeiro de 1915, filha de Francisco Coelho Gomes e de Maria do Rosário Gomes, onde residiu parte da sua vida.
Como não aproveitou convenientemente a escola primária, a sua instrução era pouca, mas, o suficiente para desenvolver as suas capacidades intelectuais, graças à sua privilegiada inteligência e à excelente memória.
Figura atípica da ilha das Flores, foi sempre uma trabalhadora incansável, dedicando-se desde muito jovem, quer aos trabalhos domésticos das mulheres, quer aos trabalhos rurais dos homens e, sobretudo, à pesca.
Para além de fumar desde jovem, vestia geralmente roupas de homens – numa altura em que eram poucas as mulheres açorianas que ousavam fazê-lo publicamente. Frequentava qualquer tipo de taberna, bebendo lado-a-lado com os homens, sobretudo depois de se separar do marido. No seu tempo as mulheres, para além de não fumarem, não tomavam bebidas alcoólicas, nem frequentavam cafés e muito menos tabernas.
Dela o escritor faialense, Manuel Greves – que viveu temporariamente nas Flores – para evidenciar a sua força e teimosia, escreveu o seguinte em “Aventuras de Baleeiros”: “E certo é, também, que [o mar] não venceu arrancar de cima dum bico de rocha, numa tarde, as mãos fortes, pegadas a uns músculos rijos, de Maria da Luz, quando andava às lapas, na costa da Fazenda das Lajes das Flores. A corajosa mulher, agarrada ao rochedo, praguejava às vagas violentas que a cercavam:”


“ - Ó alma do diabo! Tu serás mais forte do que eu... mas, não és mais teimoso!...”
“E a Maria salvou-se”.
Foi casada com o fazendense Francisco Rodrigues Azevedo. Do casal nasceram as filhas Jesuína (já falecida), Alzira e Judite, pelo que era ela que, com esmerado zelo e amor, cuidava da sua educação, ao mesmo tempo que se esforçava pela manutenção da vida económica do seu lar. As filhas, depois de casadas, viriam a emigrar para o Canadá, na companhia do pai, onde actualmente residem e onde também existem netos que ela adorava.
Durante a sua vida passou por diversas actividades. De início, quando residia na Fazenda, acumulando com a lida da casa, dedicava-se à actividade rural da agro-pecuária, fazendo-o com o conhecimento e a resistência física de um homem. Com a ajuda do marido, lavrava os seus terrenos, semeava e tratava do milho e das demais culturas agrícolas, ordenhava vacas, transportava às costas lenha e alimentação para os animais, alternando essas trabalhos com a actividade da pesca. Recordo-me que foi ela quem me ensinou a lavrar, no Cerrado Grande, com arado de “aiveca”, numa altura em que, devido à minha juventude, meu pai não tinha paciência para me deixar “dar um reguinho” – orgulho de qualquer jovem rural do meu tempo.
Certamente para facilidade do trabalho que fazia começou a usar calças de homem desde jovem. Por esse motivo dava nas vistas, constando que, por essa razão, chegou a ser detida pela polícia na ilha Terceira, no tempo em que eram proibidos os “travestis” na via pública, valendo-lhe então o Chefe da PSP, António Gonçalves, também ele um florentino natural de Lajes das Flores que muito bem a conhecia.

Nunca a vimos usar saia, salvo no dia da festa religiosa por ela custeada, na freguesia da Fazenda, no cumprimento anual de uma promessa. Vestia-se assim para nesse dia ir à igreja assistir às cerimónias religiosas que nela se realizavam – fazendo-o com o respeito e a devoção que sempre tivera pela religião Católica.
Mais tarde viria a fixar residência na Vila de Baixo, em Lajes das Flores, mesmo junto do Porto, onda se dedicava quase exclusivamente à pesca e à venda de pescado. A lida da casa aborrecia-a, embora por vezes fosse forçada a fazê-la. Para poder ir legalmente para o mar, as autoridades marítimas chegaram a passar-lhe uma cédula pessoal, já que sua actividade piscatória era essencialmente feita por mar, com uma lancha que chegou a possuir.
Discutia com os companheiros de pesca e com quaisquer homens sobre os problemas e as notícias do dia-a-dia, já que era possuidora de um espírito curioso e contraditório, dedicado a todo o género de actualidades.
Geralmente não tinha interesse pelas conversas das mulheres, situação que fazia com que estas lhe respondessem de igual forma. Animava-se com as discussões que mantinha, parecendo provocá-las para aprender e saber mais.
Odiada por uns e tolerada por outros, tinha especial vocação para se envolver em questões judiciais e polémicas. Era também uma grande frequentadora, como assistente, dos julgamentos realizados no Tribunal das Flores. Certamente por esse motivo livrava-se bem das questões judiciais, que gostosamente provocava, defendendo-se nelas com astúcia.

Apesar de ser temida por alguns, pela sua falta de rigor e pelo seu feitio polémico, em certas ocasiões, era, contudo, muito caridosa e prestável para servir os amigos e todos os que dela necessitassem.


domingo, 8 de dezembro de 2019

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Angra do Heroísmo ilha Terceira Açores


A Igreja de Nossa Senhora da Conceição localiza-se no centro histórico da cidade e Concelho de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores.
Remonta à primitiva Ermida de Nossa Senhora da Conceição, erguida entre os anos de 1460 e 1474, por iniciativa de Álvaro Martins Homem, um dos primeiros povoadores de Angra. A ele se deve ainda, no mesmo período, a construção da primitiva Ermida de São Salvador, atual Sé Catedral.
Embora se desconheça a data da sua edificação, Alfredo da Silva Sampaio refere que o mais antigo documento que se conhece a respeito da Igreja da Conceição é um Alvará de João III de Portugal, passado em 26 de Março de 1553, determinando ao bispo que a ermida passasse a sede da paróquia de mesmo nome.
Ao longo dos séculos conheceu diversas reconstruções.
Em seu interior destacam-se:
um antigo órgão que pertencia ao Convento das freiras da Luz, na Praia da Vitória;
um quadro a óleo no baptistério, representando o batismo de Jesus;
a capela-mor, uma das mais ricamente decoradas da Terceira, com vários retábulos, alguns de reconhecido valor artístico. Sobre esta, Sampaio refere:

"Sobre o arco desta capela estão as armas reais portuguesas, e o tecto é todo coberto por quadros a óleo, em que se representa várias passagens das Escrituras, que têm relação com os mistérios de Nossa Senhora. Nas paredes entre os quadros que representam a morte de Nossa Senhora, São José e São João Baptista, distinguem-se dois grandes painéis, ocupando quase todo o comprimento da capela e que representam, de um lado o nascimento de Cristo, e do outro a Epifania."

1574 - data do mais antigo registo de baptismo desta Paróquia.
1582 (15 de Outubro) - António I de Portugal, antes de partir da ilha, deu uma esmola de quinhentos cruzados para se concluírem as obras desta igreja. À época, a Paróquia tinha novecentos paroquianos, um vigário, um cura e sete beneficiados.
1639 - O jesuíta, Ambrósio Francisco Pinto, natural desta paróquia, foi morto pelos neerlandeses como um dos "Quarenta Mártires do Brasil".

1717 (6 de Dezembro) - Criação da Confraria de Nossa Senhora da Conceição.
1858 (1 de Novembro) - A igreja foi visitada, pelo Infante D. Luís, sendo o seu vigário o Cónego Rogério, cavaleiro das Ordens de Cristo, de Portugal e Brasil e de Nossa Senhora da Conceição.
1862 (31 de Maio) - Arquiconfraria do Coração de Maria, sendo Vigário da Conceição o Cónego Francisco Rogério da Costa, quem nesse mesmo ano iniciou a devoção do Mês de Maria - celebração que depois irradiou para todo o arquipélago dos Açores. As solenes festividades da Primeira Comunhão, a La Salette e outras são também de iniciativa sua.
1867 (2 de Junho) - Fez-se uma grandiosa procissão nesta paróquia em cumprimento de um voto dos terceirenses, formulado em ocasião aflitiva de tremores de terra, terá participado grande parte da população da cidade.

1902 (29 de Novembro) - Inicio da subscrição para a aquisição da imagem de Nossa Senhora da Conceição, actualmente na Capela-mor do Santuário do mesmo nome.
1910 (8 de Dezembro - Inauguração da sua iluminação eléctrica.
1946 (17 de Maio) - Concluídas as obras de beneficiação, o bispo D. Guilherme Augusto, voltou a consagrar a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
1950 - Foi demolida a Sacristia do Santíssimo (uma das três até então existentes) para se fazer um salão (17,50 m x 5m) para a Catequese e reuniões da Acção Católica.
1960 (30 de Abril) - Data da abertura do Centro Recreio Paroquial.
1964 (6 de Dezembro) - foi publicado pela primeira vez o Boletim semanal.
1965 (5 de Fevereiro) - Estreou-se o altar "versus populum", oferta de José Cardoso Martins e Fernando Ávila.
1980 (1 de Janeiro) - A igreja é danificada no grande terramoto.
1987 (8 de Dezembro - A Igreja é reaberta ao culto e elevada a Santuário Mariano, pelo bispo D. Aurélio Granada Escudeiro.
2003 (26 de Março) - Comemorações dos 450 anos da Elevação a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

sábado, 30 de novembro de 2019

Narciso Lopes é dos últimos na Terceira a dedicar-se à arte da tanoaria


Na ilha Terceira, nos Açores, já não há muitos carpinteiros a dedicar-se à arte da tanoaria. Um deles é Narciso Lopes, cuja carpintaria fica perto da estrada entre as Quatro Ribeiras e a Agualva, na costa norte da ilha. Apaixonado pelo trabalho em madeira, Narciso até já escreveu num jornal regional sobre as virtudes e a segurança dos tectos em madeira numa ilha flagelada em 1980 por um forte terramoto: «É mais seguro que o betão».
A carpintaria Narciso de Narciso Lopes, 59 anos, fica à beira da estrada entre Quatro Ribeiras e Agualva, na costa norte da Ilha Terceira. Narciso é um dos poucos na ilha que ainda faz tanoaria.
«Não há nada que eu não saiba fazer em madeira», explica Narciso, que cresceu na lavoura mas cedo ganhou a paixão pelo trabalho com madeira. «Dos 13 aos 18 ia sozinho na companhia de um cão guardar vacas para a Serra do Labaçal. Mas nos tempos livres e na escola sempre gostei de trabalhar a madeira. Na escola eu é que fazia os piões para os outros, com uma navalha, um vidro para raspar e uma machada pequena». Após o serviço militar, casou com a filha de um marceneiro. «Fui para a oficina do meu sogro e ao fim de seis meses já fazia qualquer mobília».

Com o terramoto que abalou a Terceira em 1980, teve muito trabalho. «Meti tectos de madeira em casas da ilha toda». Ainda hoje, Narciso Lopes mantém que os tectos em madeira são bem mais seguros do que as placas de betão. «Durante o sismo, muitas casas ficaram sem paredes e os tectos ficaram em cima dos frontais em madeira que faziam as divisões dos quartos. As traves de madeira assentes em cima das paredes não deixam que estas caiam para dentro. A placa em betão é mais perigosa em caso de sismo porque está ligada às paredes. Se a terra tremer e a construção cair, cai para dentro».
De há uns anos a esta parte, Narciso Lopes dedica-se também ao artesanato. «Faço bordões de lavrador que muita gente gosta de comprar para levar para a América, para o Canadá ou para o continente». Também faz aguilhadas: «A aguilhada é a peça com que o lavrador em cima do carro de bois toca no animal e faço varas para o jogo do pau. Já fiz alguns arados e já reparei carroças e carros de bois».

domingo, 24 de novembro de 2019

Artur Rodrigues foi o primeiro a dar a El-Rei a nova da descoberta da Índia

Há 520 anos, o terceirense Artur Rodrigues foi o primeiro a dar a El-Rei a nova da descoberta da Índia.

Vários historiadores indicam datas diferentes assinalando a chegada a Lisboa dos navios que regressavam da descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Gaspar Correia dá o dia 18 de Setembro
; mas afirma, nas suas «Lendas da Índia», que foi Artur Rodrigues, da Terceira, que primeiro se apresentou a el-rei. Stanley e Ayalla dão preferência a este livro entre quantos da Índia falam. Conta Gaspar Correia:

«Estava el-rei em Sintra quando chegou um Artur Rodrigues, casado na Ilha Terceira, o qual tinha de seu um caravelão prestes para ir ao Algarve, e vendo entrar as naus se fez à vela, passou por elas, e, perguntando donde vinham, lhe responderam: Vem da Índia! Ao que logo se fez na volta de Lisboa, onde chegou em 4 dias e entrou em Cascais e se meteu numa barquinha que ia para terra. Chegando a Sintra, à uma hora da noite, se foi a el-rei que vinha assentar-se à mesa para cear. Artur Rodrigues tomou a mão a el-rei e a beijou, dizendo: Senhor, beijei a mão a V. A. por a grande mercê que me fará por tão grande boa nova que lhe trago (narra o sucedido). O que el-rei não pode acabar de ouvir e se foi logo à capela que está dentro do paço, onde fez oração e deu muitos louvores a N. S. por tão grande mercê que lhe fizera».

Na história destes acontecimentos, a obra de Gaspar Correia, «Lendas da Índia», leva vantagem a quantas sobre eles escreveram, pela minudência com que relata os factos que soube recolher.

In Gervásio Lima, Breviário Açoreano, p. 286, Angra do Heroísmo, Tip. Editora Andrade, 1935.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Tyler Bowe, actor em "Murphy Brown" nasceu na ilha de S. Miguel Açores



Victor Nuno Botelho nasceu em Ponta Delgada, tendo emigrado aos dez anos para Fall River nos Estados Unidos da América.
Quando Victor teve de escolher um nome para a carreira lembrou-se de um miúdo que conhecera de nome Tyler, enquanto que Bowe vem do apelido Botelho.
Formou, com um grupo de amigos, aquele que viria a ser o seu primeiro conjunto musical, The Moderns. Seguiram-se mais dois. "Foram quatro anos a cantar e a tocar em toda a Nova Inglaterra", lembra.

Interpretou durante mais de dez anos o papel de Dave na série Murphy Brown [aparecendo, no entanto, apenas creditado num episódio]. Era aquele rapaz loiro sempre bem vestido, de fatiota a condizer, a quem Candice Bergen descarregava a sua fúria semana após semana.
Até à data, trabalhou como actor em cerca de 30 películas e séries televisivas.
Numa dessas séries, Tyler pôde até falar português. Foi em "The West Wing" ("Os Homens do Presidente"), com Martin Sheen e Rob Lowe à frente do elenco. O enredo girava à volta dos bastidores da Casa Branca, e a dada altura fazia falta alguém que falasse o idioma de Camões.
"Nunca até ali tinha tido a oportunidade de interpretar o papel de uma personagem que falasse a minha língua", diz o actor com orgulho.

Tyler fez o papel de cozinheiro, o senhor Gomes, e praticou a saudosa língua portuguesa graças à visita fictícia do presidente da Indonésia à poderosa Casa Branca.
Ora o que a Warner Brothers não sabia era que na Indonésia se fala tudo menos português. "E não foi possível convencê-los do contrário, pelo que interpretei o papel que me colocaram nas mãos", lembra com um sorriso divertido.

"Murphy Brown" Bloopers - Part II