domingo, 16 de junho de 2019

A Lenda da Calheta do Nesquim ilha do Pico Açores


A Lenda da Calheta de Nesquim recua ao século XVI e conta um acontecimento onde a história real se mistura com laivos de fantasia. Conta que o nome da Calheta de Nesquim teve origem num dos costumeiros acontecimentos fortuitos da vida.

Corria o século XVI, e bordejava a ilha do Pico um veleiro vindo do Brasil carregada de madeiras quando foi surpreendida durante a noite por uma forte tempestade. O barco ficou à deriva com o temporal e acabou por naufragar nas fragas da costa sul do Pico.
Da tripulação do barco somente três dos náufragos se conseguiram salvar. Informa a história que foram guiados pelos latidos do cão de bordo cujo nome era Nesquim. O Cão terá guiado os três homens com os seus latidos até uma pequena calheta levando ao seu salvamento. Em honra do cão que promoveu o salvamento destes três homens o local passou a designar-se “Calheta de Nesquim” e a formação rochosa de onde acedeu a terra, um morro costeiro próximo, passou a denominar-se “Morricão” e onde foi construído em Moinho de Vento. Para honrar este acontecimento a Calheta de Nesquim usa um cão no seu Brasão de armas como forma de eternizar para todo o sempre o acontecimento.

A história informa-nos que estes três homens se chamavam João Redondo ou Rodolfo, João Valim e o capitão que dava pelo nome de Diogo Vaz Dourado.
Destes três homens, João Valim fixou moradia na Ribeira do Meio, João Redondo foi viver para a Madalena do Pico, enquanto Diogo Vaz Dourado, por seu lado foi viver para o lugar que mais tarde passaria a denominar-se Foros.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Artista plástico da ilha do Pico Rui Goulart




Rui Goulart, artista plástico / escultor e medalhista, natural da Ilha do Pico. A sua obra é diversa e bastante multifacetada. Executa obras para fundição em bronze na maioria dos casos Arte Pública e homenagens, das quais se destacam os bustos, estátuas e medalhas, representadas em algumas ilhas dos Açores (Pico, Faial, Terceira e São Miguel), assim como no continente português, Canadá e EUA


“Born in Pico Island, Azores Rui Goulart is an artist of visual arts, sculptor and a medal-maker. His art work is very diverse, designed mostly for Public Art and Homages.
As a sculptor he creates art work for bronze foundry, such as statues, busts and medals. His work is well known among the Azoreans, and its displayed in some Azorean Islands like Pico, Faial, Terceira and Sao Miguel, also the mainland, Canada and EUA .”

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Igreja de Nossa Senhora da Estrela (Ribeira Grande) ilha de S. Miguel Açores


A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela localiza-se no largo Gaspar Frutuoso, na freguesia da Matriz, concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, nos Açores.
Remonta a uma ermida sob a invocação de Nossa Senhora da Purificação, que existiu no local em fins do século XV. Em 4 de Junho de 1507, dois meses antes da elevação da povoação a vila, deu-se início à construção de uma igreja matriz. Tendo como modelo a Igreja de São Miguel Arcanjo, em Vila Franca do Campo, a obra foi confiada ao mestre de obras biscaínho Juan de la Peña por 140 mil réis.

As obras foram concluídas em 1517, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela. Foi sagrada pelo bispo de Tânger, D. Duarte, que à época viera a São Miguel em delegação do bispo do Funchal. Na ocasião, foi depositada no altar-mor uma caixa com relíquias sagradas.

Os trabalhos de decoração prosseguiram pelo século XVI, sendo adquiridos painéis, retábulos e paramentos de grande valor artístico. O padre António Cordeiro refere-se a um altar aqui instituído por D. Mécia Pereira e seu marido, D. Gomes de Melo, que continha um painel dos Reis Magos, ainda hoje existente, e que deve datar de 1582, ignorando-se se terá sido executado na ilha ou trazido de fora.


Em 1581, quando foi sagrado o novo retábulo pelo bispo de Angra, D. Pedro de Castilho, foram juntas novas relíquias às já existentes, descritas em um pergaminho que ficou guardado na antiga caixa:

"Aos nove de Abril eu, D. Pedro Castilho, Bispo de Angra, consagrei este altar à honra da virgem, Nossa Senhora do Loreto, e nele meti as suas relíquias; a saber: Uma pequena partícula de pau e uma pouca terra de sua casa do Loreto e um osso das onze mil virgens e um osso pequeno de S. Sebastião. (...)"
O templo foi abalado pelos terramotos de 1563, 1564, 1571, 1588 e 1591. Por volta de 1680 a derrocada da torre sineira destruiu uma das naves e arruinou as demais. O então vigário Hierónimo Tavares chegou mesmo a cogitar a reedificação total, mas diante da dificuldade de recursos a mesma foi sendo adiada.


A 3 de maio de 1728 foram depositados na Igreja da Misericórdia, onde permaneceriam durante um período de oito anos em que durariam as obras, o Santíssimo Sacramento, imagens e objectos da Matriz. Após a demolição do antigo templo, iniciou-se a construção do actual, com projecto de Sousa Freire, então vigário da Ribeira Seca. Após o falecimento deste, as obras passaram a ser orientadas por Manuel de Vasconcelos. Os trabalhos prolongaram-se até 1736, com o contributo das esmolas da população.

Em 5 de Setembro de 1834, o tecto do templo desabou, tendo sido construído a expensas da Junta da paróquia.

Em 1862, o prior Jacinto do Amaral mandou restaurar as talhas de toda a igreja, tendo encomendado paramentos, imagens e pratas artísticas.


Aqui assistiu como vigário, de 15 de Agosto de 1565, data da sua posse, até 1591, ano do seu falecimento, o padre Dr. Gaspar Frutuoso, que chegou transferido da Igreja Matriz de Santa Cruz da Vila da Lagoa. Aqui, nos últimos anos de sua vida, redigiu a crónica que o imortalizou, as "Saudades da Terra". Os seus restos mortais aqui estiveram depositados por séculos até serem transferidos para o cemitério da vila.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Luís de Camões


Tinha uma flauta.
Não tinha mais nada mas tinha uma flauta
tinha um órgão no sangue uma fonte de música
tinha uma flauta.

Os outros armavam-se mas ele não:
tinha uma flauta.
Os outros jogavam perdiam ganhavam
tinham Madrid e tinham Lisboa
tinham escravos na Índia mas ele não:
tinha uma flauta.

Tinham navios tinham soldados
tinham palácios e tinham forcas
tinham igrejas e tribunais
mas ele não:
tinha uma flauta.

Só ele Príncipe.

Dormiam rainhas na cama do rei
princesas esperavam no belvedere
Ele tinha uma escrava que morreu no mar.

Morreram escravas as rainhas
morreram escravas as princesas
nenhuma teve o seu rei
para nenhuma chegou o Príncipe.
Por isso a única rainha
foi aquela escrava que morreu no mar:
só ela teve
o que tinha uma flauta.


Morreram os reis que tinham impérios
morreram os príncipes que tinham castelos
mas ele não:
tinha uma flauta.

De fora vieram reis
vieram armas de fora
os príncipes entregaram armas
ficou sem armas o povo.
As armas de fora venceram
todas as armas de dentro.
Só não venceram o que não tinha armas:
tinha uma flauta.

E as vozes de fora mandaram
calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta.
Vieram juízes e cadeias.
Mas a flauta cantava.

Passaram por todas as fronteiras.
Só não puderam passar
pela fronteira
daquela flauta.


E quando tudo se perdeu
ficou a arma do que não tinha armas:
tinha uma flauta.

Ficou uma flauta que cantava.
E era uma Pátria.

Manuel Alegre

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Pérola Rego e a lenda da Lagoa do Ginjal ilha Terceira Açores


Naquela época, na freguesia dos Altares, vivia Pérola Rego, menina muito rica, herdeira de imensa fortuna. Descendente das famílias Rego e Baldaya pela linha paterna, e da família Pamplona pela linha feminina. Pérola Rego era bela, com cabelos louros escuros, brilhantes e fartos. Os seus olhos eram castanhos da cor do cetim. A sua pele rosada, era muito fina.

Estes atributos, aliados a uma grande candura e bondade de espírito e coração levaram a que um elevado número de rapazes se enamorassem dela. Uma bela manhã ensolarada, Pérola desceu o eirado do solar de seu pai e foi ver a sua imagem reflectida nas águas da cisterna da casa.

Uma fada que vivia nas imediações queria defender Pérola dos pretendentes, visto que estes não a amavam e apenas queriam o seu dinheiro. Escondida dentro da cisterna à espera da rapariga, fez um encanto e tomou poder sobre a imagem da menina que se reflectia nas águas paradas da cisterna. Depois começou a engendrar uma forma de a surpreender durante o sono e levá-la para um local seguro no seu castelo encantado, longe do olhar dos homens.


O palácio encontrava-se no interior da ilha, perto do Pico do Vime; tinha lindos jardins e magníficos bosques de árvores típicas das florestas exóticas da Macaronésia. Tinha lindos Azevinhos, Sanguinhos, altos Cedros, belas árvores de Pau-Branco e gigantescos e antiquíssimos Dragoeiros. Era rodeado pelos dourados campos de trigo que se enfeitavam de vermelhas papoilas. No centro destes campos encontrava-se o grandioso castelo feito de brancas pedras de mármore, brilhante marfim, prata e ouro.

À meia-noite do dia de São João, quando as estrelas brilham com suavidade e a lua é rainha nos céus, a bela Pérola foi levada durante o sono envolta nas asas brancas da fada. Pela manhã a notícia do seu desaparecimento espalhou-se, deixando os pais em pânico, o solar em alvoroço e os seus enamorados em ansiedade. Em grupo, os pretendentes recorreram a uma velha feiticeira que vivia no cimo de uma serra e lhes revelou a existência do palácio encantado.


Alguns pretendentes quiseram atacar o castelo, deitando abaixo as muralhas pela força das armas. Outros mais cuidadosos consultaram também uma velha benzedeira que morava na freguesia dos Biscoitos. Esta disse que tinham de levar alaúdes e, à maneira dos antigos trovadores, irem cantando versos mágicos e executando marchas de magia que ela lhe ensinaria. Assim veriam ao longe o castelo encantado, visto que uma coisa encantada só se desencanta com outro encanto.

A benzedeira ainda os avisou que iriam encontrar uma inscrição sobre um enorme rochedo: se estivesse gravada a prata, conteria nas suas palavras o modo de atrair Pérola; mas se a tivesse sido gravada a fogo, os seus poderes não tinham força para vencer e nenhum deles merecia o amor da jovem.

Os pretendentes partiram de madrugada, mal o sol raiou. Pelos caminhos iam cantando os versos ensinados pela velha benzedeira dos Biscoitos. Ao fim de muitas horas de caminhada foi ouvido um grito de alegria. Ao longe via-se recortado na paisagem o palácio da fada, lindo, brilhando à luz do sol nascente.


Apressando o passo, percorreram o longo caminho até ao castelo. Desceram encostas, percorreram vales e subiram serras e colinas. Ao chegarem ao local onde devia estar o castelo, este tinha desaparecido na bruma. No seu lugar encontrava-se uma bela, serena e plácida lagoa de águas claras. Numa das margens, uma mensagem gravada a fogo numa pedra dizia: "Aqui, neste espaçoso lago, escondeu-se o palácio da linda Pérola, a donzela de cabelos loiros". Desiludidos, pensaram que Pérola estava perdida para sempre.

Mas a mãe desta, cristã piedosa, logo na manhã em que a fada lhe levara a filha fora-se ajoelhar diante de uma imagem de São Roque e pedir a sua intervenção. No fim de uma das suas muitas preces, ouviu uma voz ao ouvido que lhe segredou: "Vai tranquila, a tua filha está ao anjo da guarda". No dia de São Pedro à hora do por sol, Pérola apareceu no terraço do solar de seu pai, acompanhada por um Arcanjo. Vinham num batel de marfim puxado por um cisne de uma brancura imaculada.

Anos mais tarde apareceu o verdadeiro amor de pérola, um cavaleiro na demanda do Santo Graal, vestido com uma armadura refulgente. Séculos depois de esta lenda ter tido início, ainda existe o lago encantado onde se escondeu o castelo da fada - a Lagoa do Ginjal.

domingo, 2 de junho de 2019

Antes morrer livres que em paz sujeitos



Foi a sua frase Antes morrer livres que em paz sujeitos que passou a ser a divisa dos Açores,  é retirada de uma carta escrita a 13 de Fevereiro de 1582 por Ciprião de Figueiredo, no cargo de corregedor dos Açores, a Filipe II de Espanha. Naquela missiva recusava a sujeição da ilha Terceira em troca de mercês várias, afirmando: "... As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho... porque um morrer bem é viver perpétuamente...".


Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos  1.º e único conde da vila de São Sebastião (por D. António I de Portugal) .
Distinguiu-se como corregedor dos Açores durante a crise de sucessão de 1580, tendo governado o arquipélago durante o período conturbado que se seguiu à aclamação nas ilhas de D. António, Prior do Crato como rei de Portugal. A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que levou à vitória na Batalha da Salga.
Era filho de Sebastião Gomes de Figueiredo, natural de Trancoso, e de Antónia Fernandes de Vasconcelos, filha natural do arcebispo de Lisboa D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos. Por este lado descendia dos Meneses da rainha Leonor Teles.

Doutor em Direito Canónico, em 1578 foi nomeado pelo rei D. Sebastião para o cargo de corregedor dos Açores.

No exercício das funções de corregedor manteve graves dissidências com o bispo de Angra, D. Pedro de Castilho, sobre questões de repartição de competências entre a jurisdição civil e eclesiástica resultantes da aplicação das normas do Concílio de Trento que naquela época foram transpostas como leis do Reino de Portugal. Desse conflito resultou a partida do bispo para Ponta Delgada, cidade onde de facto estabeleceu a sede da governação diocesana.
A dissidência entre Ciprião de Figueiredo e o bispo D. Pedro de Castilho agudizou-se a partir de 1580, quando em consequência da aclamação de D. António Prior do Crato como rei de Portugal em Angra, o corregedor assumiu a liderança do partido acantono e o bispo, em Ponta Delgada, a chefia do partido favorável à Casa de Áustria.


D. António nomeou Ciprião de Figueiredo para o cargo de governador dos Açores, mas este nunca conseguiu estender a sua autoridade às ilhas de São Miguel e de Santa Maria, tendo a Câmara de Ponta Delgada, instigada pelo bispo, aclamado Filipe II como rei de Portugal. Esta dissensão, e consequente divisão do arquipélago, mereceu violenta crítica de Ciprião de Figueiredo, que em carta dirigida à Câmara de Ponta Delgada afirma que «uma mulher mesmo pouco séria não se entrega sem ser requestada», em alusão à atitude da Câmara.
Apesar das difíceis circunstâncias que se viviam na ilha Terceira, o governo de Ciprião de Figueiredo foi brando e moderado,  tentando obter consensos e não alienar a população da cidade de Angra. Tendo tomado medidas enérgicas para conter a conspiração liderada por João de Bettencourt, que instigado pelos jesuítas do Colégio de Angra tinha tentado aclamar D. Filipe em Angra, que incluíram a sua condenação à morte após julgamento na Relação de Angra, a que Ciprião de Figueiredo presidia, protelou e nunca executou essa sentença e tentou evitar medidas punitivas que extremassem a relação entre os partidos. Tendo afastado os partidários filipinos dos cargos públicos pela alteração das leis, concentrou a sua acção na organização da defesa e na preparação da resistência à previsível tentativa de invasão da ilha.

A primeira tentativa de invasão ocorreu a 26 de Julho de 1581, quando forças afectas a Filipe I de Portugal (Filipe II de Espanha) atacaram o lugar da Salga, no litoral da vila de São Sebastião, na costa leste da Terceira. O combate que se seguiu, conhecido como a Batalha da Salga, deu a vitória às tropas milicianas organizadas pelo governador, que também era capitão-mor da ilha. Esta vitória. devida à organização e energia de Ciprião de Figueiredo, deu novo alento à resistência terceirense e à causa de D. António, especialmente porque criou a credibilidade necessária para que a diplomacia antonina fosse atendida nas cortes francesa e inglesa.
Apesar do seu desempenho e da vitória na Salga, em finais de 1581, em resultado de uma manifestação dos seus opositores de que pretendiam uma política mais enérgica, D. António resolveu substituir Ciprião de Figueiredo por Manuel da Silva Coutinho, por ele elevado a conde de Torres Vedras.

Em consequência dessa decisão do Prior do Crato, em Fevereiro de 1582 Ciprião de Figueiredo entregou a governação da Terceira a Manuel da Silva, sendo compensado por D. António com o título de conde de São Sebastião, vila próxima do local onde no ano anterior se travara a Batalha da Salga. O seu substituto pretendeu nomeá-lo almirante de uma esquadra para a conquista de Cabo Verde, mas Ciprião de Figueiredo declinou por desconfiar que simplesmente se pretendia afastá-lo do centro das decisões.
Após o desastre sofrido na Batalha Naval de Vila Franca, travada a sul da ilha de São Miguel em 26 de Julho de 1582, D. António, que se refugiara na Terceira, levou Ciprião de Figueiredo para França. Exilado em França, como o próprio D. António, em 1601 fez uma viagem a Itália. Terá gozada da estima do rei Henrique IV de França e de Fernando I, grão-duque da Toscânia.
É o patrono do Regimento de Guarnição n.º 1, aquartelado na Fortaleza de São João Baptista do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo.


Durante muitos anos a Escola Preparatória de Angra do Heroísmo teve Ciprião de Figueiredo como patrono, sendo o nome hoje perpetuado numa rua daquela cidade. 
A companhia aérea Azores Airlines baptizou o seu primeiro Airbus A330 com o nome "Ciprião de Figueiredo".

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Cais da cidade de Angra do Heroísmo ilha Terceira Açores





O antigo Cais da Alfândega localiza-se na parte Norte da baía de Angra do Heroísmo, na freguesia da Sé, em pleno centro histórico da cidade e Concelho de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores.
Constitui-se no mais antigo cais da cidade de Angra, estabelecido pouco depois da chegada dos primeiros povoadores, eventualmente por volta de 1470 ou 1500, altura em que foram promovidas grandes obras por determinação de Álvaro Martins Homem.
O cais dava comunicação directa com as Portas da Cidade, via Pátio da Alfândega, o Hospital da Misericórdia (na Rua de Santo Espírito, e o edifício da Alfândega, onde eram registados e armazenados produtos e mercadorias.
Aqui aportavam as embarcações em trânsito de, e para, o Ultramar carregadas com mercadorias e variedade de riquezas.

A imagem mais antiga que se conhece mostra o cais e a principal porta da cidade, cerca de 1590.
O ancoradouro ficava junto à costa do Monte Brasil, a reparação naval era feita na "ribeira"' com acesso pela Rua de São João e, fortificada, vê-se uma porta conduzindo à Rua Direita e à cidade, ficando a nascente as bicas de água de abastecimento aos navios.
Dos 100 anos antecedentes conhece-se pouco. Primeiro foi só um cais, depois a porta que teve, sobretudo, funções de garantia de cobrança dos direitos da alfândega. Esta porta foi fortificada, se bem que a grande protecção fosse dada, desde meados do século XVI, pelas fortificações á entrada da baía: Forte de São Sebastião a nascente, O Forte de São Benedito e logo depois o Forte de Santo António, a poente, mandadas fazer por recomendação do Provedor das Armadas Pero Anes do Canto.
Cerca de 1610 fizeram-se grandes reparações. A porta enobreceu-se e tudo se tornou conforme aos grandes negócios que faziam da cidade a universal escala do mar do poente.
O pátio da Alfândega, rodeando por nascente e sul por edifícios, favorecia os comerciantes que, de cima da muralha podiam ver as mercadorias em baixo no Cais da Alfandega, que era mais baixo e com outra configuração.

Esta porta durou cerca de 250 anos da vida, pois, em 1 de Novembro de 1755 o maremoto originado pelo terramoto de Lisboa, ao passar pela Baía de Angra do Heroísmo, passou acima da porta do mar e chegou à Praça Velha. No retorno arrastou consigo as estruturas da porta.
Criada a Capitania Geral dos Açores em 1766, por decreto de el-rei D. José I de Portugal e chegado a Angra o primeiro capitão-General, D. Antão de Almada, logo manda que o sargento-mor João António Júdice tire o plano de reedificação do cais, aproveitando-se o que pudesse conservar-se.
Data dessa época a segunda grande modificação da relação de Angra com o mar, ditando o aspecto geral até hoje. Assim, já entre o barroco e o neo-clássico, surge um pátio amplo, ao nível da Rua Direita, ligado ao cais por duas largas escadarias em ferradura, rematadas em cima por duas portas com arcos de pedra. Em fundo a Igreja da Misericórdia datando de 1746.
As bicas de abastecimento dos barcos foram transferidas para um chafariz de duplas pilastras laterais, ao centro das escadarias.
A guarda ainda se mantinha, sempre mais por razões administrativas que de defesa, e a porta de acesso de viaturas ficou em frente á Rua de Santo Espírito. O cais recebe novo revestimento sendo elevado e alargado.

A porta do mar, as casas da guarda e tudo o que fizera aquele lugar é enterrado debaixo do entulho destinado a apoiar a nova obra.
Posteriormente, no século XIX, chegou a receber embarcações a vapor embora estas, muitas vezes, tivessem de permanecer mais afastadas do porto devido à já então fraca profundidade das suas águas, causado pelo assoreamento da baía.

Aqui pisou pela primeira vez território açoriano, a 3 de Março de 1832, Pedro IV de Portugal.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Quem partiu da cidade da Ribeira Grande Ilha de S. Miguel Açores para o Brasil



1-  André da Costa Leite (Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Portugal, ? - Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, c. 1781) casado com Clara Maria de Sousa.

2-  António Muniz Leite (Fenais da Ajuda, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores, Portugal, 26 de Fevereiro de 1708 - Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 14 de Dezembro de 1810) casado com Francisca Fagundes de Oliveira Leite.

3- Francisco de Arruda Botelho (Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Portugal, c. 1641 - Santana de Parnaíba, São Paulo, c. 1684) casado com Maria de Quadros.

4-  Manuel da Silva Pacheco (Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Portugal, ? - Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 3 de Junho de 1825) casado com Benvinda Gomes Martins e Bernarda Gomes Jardim.


5-  Paulo Machado de Sousa (Ribeira Grande, Ilha do Faial, Açores, Portugal, ? - Brasil, ?) casado com Anna Maria de São José.

6-  Sebastião Arruda Botelho (Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Portugal, c. 1642 - Brasil, ?) casado com Isabel de Quadros.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

O porquê do nome Canada da Salga na freguesia dos Biscoitos ilha Terceira Açores





O nome desta via de comunicação, segundo reza a tradição popular deve o seu nome a um acontecimento que ocorreu durante o tempo da dominação filipina. Quando as forças castelhanas invadiram a freguesia dos Biscoitos e foi travado um combate tão violento que o sangue dos soldados correu de forma a tornar-se necessário espalhar sal, para se evitar uma pandemia de peste que segundo se acreditava na altura poderia provir simplesmente do sangue espalhado.

domingo, 19 de maio de 2019

António Lourenço da Silveira Macedo historiador da ilha do Faial


António Lourenço da Silveira Macedo (Horta, 11 de Setembro de 1818 – Horta, 18 de Dezembro de 1891), foi um historiador e político da ilha do Faial, Açores, autor da primeira obra historiográfica inteiramente dedicada àquela ilha. Foi ainda reitor do liceu da Horta, procurador à Junta Geral do Distrito da Horta, exercendo ainda diversos cargos públicos na administração da sua ilha.
António Lourenço da Silveira Macedo nasceu na Horta, Faial, a 11 de Setembro de 1818, filho de Lourenço António da Silveira Macedo e de sua mulher Maria delfina da Silveira Goulart, ambos
naturais da vila da Madalena, da fronteira ilha do Pico.

Filho de pai operário, foi com grande sacrifício que a família lhe propiciou uma educação literária que permitiu que, por Decreto de 3 de Dezembro de 1839, acedesse ao lugar de professor régio da cadeira de latim nas Lajes do Pico, que regia interinamente a desde 1837. Em 1844 foi transferido para a Horta, obtendo provisão definitiva no ano de 1848.

Sendo professor régio de latim, foi integrado no Liceu criado na Horta aquando da reforma do sistema educativo, já que a sua criação implicou a extinção das anteriores cadeiras-régias. No Liceu, Silveira Macedo foi encarregue das disciplinas de Matemática e Filosofia, iniciando uma longa carreira docente naquela instituição.

Ocupou sucessivamente os lugares de secretário e bibliotecário do Liceu da Horta, sendo depois nomeado seu reitor.

Sendo um destacado professor liceal, participou em múltiplas iniciativas cívicas e políticas, exercendo funções de destaque na Junta Geral, na comissão administrativa do porto artificial da Horta, na comissão de agricultura, com especial destaque na luta contra a filoxera que então arruinou as vinhas do Pico.

Silveira de Macedo foi um activo publicista, editando diversos jornais e publicando múltiplos artigos na imprensa da época. também se dedicou à produção de manuais escolares para os alunos do Liceu, que depois de aprovados, eram impressos localmente. Cultivou também os estudos históricos e biográficos, sendo a sua obra mais conhecida a "História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta", publicada em três volumes, na Horta, a partir de 1871.


Por Decreto de 12 de Julho de 1833 foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo, pelos relevantes serviços prestados à sua terra.

Silveira Macedo faleceu na Horta, localidade onde tinha nascido e viveu a maior parte da sua vida, a 18 de Dezembro de 1891.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A acção inquisitorial nos Açores aos judeus


Em 1592, o Inquisidor nos Açores Pe. Jerônimo Teixeira Cabral, denuncia a infiltração de cristãos-novos na Igreja como clérigos. A primeira ac
ção inquisitorial nos Açores foi em 1555, quando o bispo de Angra, D. Frei Jorge de Santiago mandou verificar vários casos de Judaísmo, mandando prender alguns homens e enviá-los para Lisboa. Dois anos após foram enviadas para Lisboa 22 pessoas acusadas de práticas judaicas. São elas: Ana Lopes; André Moniz; António Fernandes; Branca Dias, Cecília Rodrigues, Diogo Lopes; Fernão Lobo; Francisco Lopes; Mestre Gabriel; Gabriel de Andrade; Henrique Ribeiro; Inês Dias; Isabel Mendes; Isabel Moniz; Isabel Pinta; João Tomás; Jorge Álvares; Manuel Álvares; Rui Dias; Rui Fernandes e Violante Henriques. Logo seguiram para a capital da Metrópole: Pero Galvão; Antonio Carvalhais; Jácome Gonçalves e Maria Dias. Já em 1608 começava a ser montada a rede de funcionários inquisitorial. Iniciando pelos Comissários do Santo Ofício, e logo em 1612 a dos Familiares (os esbirros mais infames). Entretanto, desde 1597, já actuava como Comissário da Inquisição em Ponta Delgada o pe. Luís Pinheiro, reitor da residência da Companhia de Jesus e, como primeiro Familiar, o tanoeiro Pero Fernandes, residente em Ponta Delgada. E, em Angra, actuava como Comissário o Pe. Francisco Valente, reitor do Colégio Jesuíta. Para a Ilha do Faial, somente em 1749 foi nomeado Comissário o frei José de Santo António de Pádua. Existiram comissários do Santo Ofício no arquipélago açoriano até 1806 quando, então, perseguiam os franco-maçons.

Outros burocratas da Inquisição eram os Notários, os Qualificadores e os Visitadores das Naus. Havia também o trabalho de redução de estrangeiros, que procuravam converter para o catolicismo como foi o caso da família inglesa Fisher, residente no arquipélago. A primeira Visitação ao arquipélago foi a de D. Marcos Teixeira entre 1575-1576, o mesmo que esteve no Nordeste do Brasil. Ele visitou as ilhas de São Miguel, Terceira e Faial. A segunda foi em 1592, feita por D. Jerônimo Teixeira Cabral, tendo visitado as ilhas Terceira e São Miguel. Já a terceira e derradeira visita, foi realizada entre 1619-1620, por D. Francisco Cardoso do Torneio, que esteve nas ilhas de São Miguel e Terceira. Do total de 354 pessoas denunciadas, 172 foram por Judaísmo que, somadas às 27 prisões de 1555-1557, totalizam 199 cristãos-novos denunciados nos Açores. Foram gerados 114 processos entre 1557 e 1802, envolvendo 112 pessoas, sendo apenas 26 pela "heresia judaica". E, destes, somente 10 foram enviados a Lisboa, e apenas três condenados à morte na fogueira. Os condenados à pena capital foram: Leonor Marques, em 1584; António Borges, em 1559 e Maria Lopes, em 1576.
Os cristãos-novos encontraram nas Ilhas Atlânticas um local privilegiado para seu estabelecimento, uma vez que, ali, podiam praticar mais ou menos, livremente, seus rituais cripto-judaicos, pelo menos, longe da Inquisição, que só esteve em três das nove ilhas, como vimos.

 Essas crenças e costumes, resumidamente, eram os seguintes: dizer que a Lei de Moisés é mais suave e mais delgada que a de Cristo; invocar o Deus de Israel; a guarda do sábado, o Shabat, não trabalhando nesse dia; limpar candeeiros e neles colocar azeite limpo e torcidas novas às sextas-feiras, vestindo camisas lavadas e lançando lençóis limpos na cama, além de casarem nesse dia da semana; dizer orações em língua hebraica; a recusa em comer carne de porco, lebre, coelho, aves asfixiadas ou afogadas e peixe sem escama; tirar a gordura e o sangue da carne; refogar os alimentos com azeite; degolar animais cortando-o de alto a baixo com uma faca afiada e rezando uma oração e deitando fora o sangue do animal; fazer cerimonias judaicas como o jejum da Rainha Ester ou do Purim; o jejum de Yom Kippur, jejum Maior ou do Perdão, em Setembro; a Páscoa do pão ázimo, o Pesah ou do cordeiro, em Março; usar alguidar ou louças e utensílios novos nesses dias de festa. Além desses costumes, eram praticados os seguintes: carpir meneando o corpo e amortalhar os defuntos colocando-lhe uma moeda na mão; despejar toda a água existente na casa quando falecia alguém por acreditar que o anjo da morte lavasse a espada com que matara o falecido; lançar uma moeda ou peça de ouro na água do banho dos recém nascidos; olhar para o oriente meneando o corpo; a bênção judaica e a circuncisão. E, também, o conhecimento de lendas e histórias judaicas. Toda essa tradição era transmitida à família pela via feminina. A condenada à morte na fogueira Maria Lopes, denunciada pelo filho Fernão Lopes, de praticar ritos judaicos tinha, entre seus pertences, rezas escritas em hebraico que, traduzidas, se verificou tratar, dentre outras, do Shemá Israel (Ouve ó Israel), um trecho: "Ouve ó Israel. Adonai é nosso Deus. Adonai é uno. Bendito é o nome para a eternidade e perfeição".


Nem os nobres escaparam da perseguição da Inquisição nos Açores. D. Rodrigo da Câmara, Conde da Vila Franca, preso em 1650, em São Miguel, foi condenado à prisão perpétua com a perda de honras e títulos. D. José, seu filho, conseguiu herdar o título mudado para Conde da Ribeira Grande. É sabido que os Câmaras descendem todos de João Gonçalves Zarco, natural de Matosinhos, Portugal, que adoptou o sobrenome Câmara de Lobos e depois somente Câmara, referindo-se a uma gruta na Ilha da Madeira que era refúgio dos leões marinhos, descobridor da Ilha da Madeira e Porto Santo. Os Zarcos descendem de família judaica espanhola, provavelmente fugida dos massacres de Sevilha de 1391. Em Portugal, convertidos ao cristianismo, logo se tornaram fidalgos e obtiveram mercês reais ao entrarem para a Ordem de Cristo, a antiga Ordem dos Templários, sediada no castelo de Tomar. Exactamente nessa cidade existe, ainda hoje, uma das duas sinagogas reconhecidas oficialmente como representantes dos antigos templos das comunidades hebraicas. A outra, é a sinagoga de Castelo de Vide, ambas transformadas em museus judaico-portugueses. O grande Fernando Pessoa, descendente de Martinho da Cunha Pessoa de Oliveira, pertencente a uma numerosa família de cristãos-novos judaizantes do Fundão, tinha conhecimento de sua origem, daí a explicação para seus heterônimos.


terça-feira, 14 de maio de 2019

Origens do Divino Espírito Santo




Os Impérios do Divino Espírito Santo são um dos traços mais marcantes da identidade açoriano, constituindo um culto que para além de marcar o quotidiano insular, determina traços identitários que acompanham os açorianos para todos os lugares onde a emigração os levou. Para além dos Açores, o culto do Divino Espírito Santo está hoje bem vivo no Brasil (para onde foi levado há três séculos) e na América do Norte.

Apesar da colonização dos Açores só se ter iniciado a partir de 1432, quase 200 anos após o apogeu do joaquinismo, e do núcleo central da doutrina de Joaquim de Fiore já ter sido condenado em 1256 pelo papa Alexandre IV, há no arquipélago um claro reacender daquelas doutrinas, inspirando manifestações religiosas e acções rituais e simbólicas que perduram até aos nossos dias.
Seguramente por influência dos franciscanos espiritualistas, que foram os primeiros religiosos a instalar-se nas ilhas, partilhando com os primeiros povoadores as agruras da colonização, o culto do Divino Espírito Santo, então em apagamento na Europa devido à crescente pressão da ortodoxia religiosa, foi trazido para as ilhas. Aqui, em comunidades isoladas e sujeitas às pressões e incertezas da vida na margem do mundo conhecido, as crenças e ritos do Divino Espírito Santo ganharam raízes e recuperaram o seu vigor, reganhando um claro cunho joaquimita que ainda hoje está bem patente.
Os Açores, e as comunidades de origem açoriana, constituem assim os últimos redutos onde as doutrinas de Joaquim de Fiore sobrevivem, e, a julgar pelo recrudescer dos Impérios do Divino Espírito Santo, mantêm todo o seu vigor.
Sobre as origens do culto e dos rituais utilizados, pouco se sabe. A corrente dominante filia o culto açoriano ao Divino Espírito Santo nas celebrações introduzidas em Portugal pela Rainha Santa Isabel, que por sua vez as teria trazido do seu Aragão natal. De facto existem notícias seguras da existência do culto nos séculos XIV e XV em Portugal.


O seu centro principal parece ter sido em torno de Tomar (a Festa dos Tabuleiros parece ter aí raiz), localidade que era sede do priorado da Ordem de Cristo, a que foi confiada a tutela espiritual das novas terras, incluindo dos Açores. Outro centro relevante foi Alenquer, localidade onde, nos primeiros anos do século XIV, a rainha Santa Isabel terá introduzido em Portugal a primeira celebração do Império do Divino Espírito Santo, provavelmente influenciada por franciscanos espiritualistas, que ali fundaram o primeiro convento franciscano em Portugal. Pelo menos assim reza um velho pergaminho franciscano depositado na Câmara Velha daquela vila estremenha. A partir dali o culto expandiu-se, primeiro por Portugal (Aldeia Galega, na época Montes de Alenquer, Sintra, Tomar, Lisboa) e depois acompanhou os portugueses nos Descobrimentos.

As novas colónias, de início subordinado directamente ao prior de Tomar, e depois ao arcebispado do Funchal e ao novo bispado de Angra, estavam sobre a orientação religiosa da Ordem, a quem competia a nomeação do clero e a supervisão do seu desenvolvimento religioso.


Neste contexto, as referências ao culto do Espírito Santo aparecem muito cedo e de forma generalizada em todo o arquipélago, já que Gaspar Frutuoso, escrevendo cerca de 150 anos após o início do povoamento, já o menciona, indicando ser comum a todas as ilhas. Tal expansão apenas seria possível se contasse com a tolerância, ou mesmo o incentivo, da Ordem de Cristo. Também as referências a festejos feitas nas Constituições Sinodais da Diocese de Angra, aprovadas em 1559 pelo bispo D. frei Jorge de Santiago, demonstram que naquela altura já eram matéria a merecer a atenção da autoridade episcopal.
Tendo em conta que os povoadores vieram de múltiplas origens, desde o norte ao sul de Portugal, e ainda da Flandres e outras regiões europeias, o que aliás está bem patente na diversidade dos falares açorianos e das tradições e costumes das ilhas, e que excluindo a diocese, não existia no temporal qualquer forma de governo comum, a existência de um culto unificador, comum a todo o arquipélago, e com existência em fase tão precoce do povoamento, parece demonstrar que terá existido uma clara intenção e coordenação na sua introdução. Admitindo tal facto, não resta senão a presença franciscana como explicação para a propagação do culto e como veículo de introdução das doutrinas joaquimitas.

A existência de Irmandades do Divino Espírito Santo é já generalizada no século XVI. O primeiro hospital criado nos Açores (1498), a cargo da Santa Casa da Misericórdia de Angra, recebe a designação, ainda hoje mantida, de Hospital do Santo Espírito. A distribuição de carne e os bodos eram também já comuns em meados do século XVI.