domingo, 2 de junho de 2019

Antes morrer livres que em paz sujeitos



Foi a sua frase Antes morrer livres que em paz sujeitos que passou a ser a divisa dos Açores,  é retirada de uma carta escrita a 13 de Fevereiro de 1582 por Ciprião de Figueiredo, no cargo de corregedor dos Açores, a Filipe II de Espanha. Naquela missiva recusava a sujeição da ilha Terceira em troca de mercês várias, afirmando: "... As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho... porque um morrer bem é viver perpétuamente...".


Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos  1.º e único conde da vila de São Sebastião (por D. António I de Portugal) .
Distinguiu-se como corregedor dos Açores durante a crise de sucessão de 1580, tendo governado o arquipélago durante o período conturbado que se seguiu à aclamação nas ilhas de D. António, Prior do Crato como rei de Portugal. A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que levou à vitória na Batalha da Salga.
Era filho de Sebastião Gomes de Figueiredo, natural de Trancoso, e de Antónia Fernandes de Vasconcelos, filha natural do arcebispo de Lisboa D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos. Por este lado descendia dos Meneses da rainha Leonor Teles.

Doutor em Direito Canónico, em 1578 foi nomeado pelo rei D. Sebastião para o cargo de corregedor dos Açores.

No exercício das funções de corregedor manteve graves dissidências com o bispo de Angra, D. Pedro de Castilho, sobre questões de repartição de competências entre a jurisdição civil e eclesiástica resultantes da aplicação das normas do Concílio de Trento que naquela época foram transpostas como leis do Reino de Portugal. Desse conflito resultou a partida do bispo para Ponta Delgada, cidade onde de facto estabeleceu a sede da governação diocesana.
A dissidência entre Ciprião de Figueiredo e o bispo D. Pedro de Castilho agudizou-se a partir de 1580, quando em consequência da aclamação de D. António Prior do Crato como rei de Portugal em Angra, o corregedor assumiu a liderança do partido acantono e o bispo, em Ponta Delgada, a chefia do partido favorável à Casa de Áustria.


D. António nomeou Ciprião de Figueiredo para o cargo de governador dos Açores, mas este nunca conseguiu estender a sua autoridade às ilhas de São Miguel e de Santa Maria, tendo a Câmara de Ponta Delgada, instigada pelo bispo, aclamado Filipe II como rei de Portugal. Esta dissensão, e consequente divisão do arquipélago, mereceu violenta crítica de Ciprião de Figueiredo, que em carta dirigida à Câmara de Ponta Delgada afirma que «uma mulher mesmo pouco séria não se entrega sem ser requestada», em alusão à atitude da Câmara.
Apesar das difíceis circunstâncias que se viviam na ilha Terceira, o governo de Ciprião de Figueiredo foi brando e moderado,  tentando obter consensos e não alienar a população da cidade de Angra. Tendo tomado medidas enérgicas para conter a conspiração liderada por João de Bettencourt, que instigado pelos jesuítas do Colégio de Angra tinha tentado aclamar D. Filipe em Angra, que incluíram a sua condenação à morte após julgamento na Relação de Angra, a que Ciprião de Figueiredo presidia, protelou e nunca executou essa sentença e tentou evitar medidas punitivas que extremassem a relação entre os partidos. Tendo afastado os partidários filipinos dos cargos públicos pela alteração das leis, concentrou a sua acção na organização da defesa e na preparação da resistência à previsível tentativa de invasão da ilha.

A primeira tentativa de invasão ocorreu a 26 de Julho de 1581, quando forças afectas a Filipe I de Portugal (Filipe II de Espanha) atacaram o lugar da Salga, no litoral da vila de São Sebastião, na costa leste da Terceira. O combate que se seguiu, conhecido como a Batalha da Salga, deu a vitória às tropas milicianas organizadas pelo governador, que também era capitão-mor da ilha. Esta vitória. devida à organização e energia de Ciprião de Figueiredo, deu novo alento à resistência terceirense e à causa de D. António, especialmente porque criou a credibilidade necessária para que a diplomacia antonina fosse atendida nas cortes francesa e inglesa.
Apesar do seu desempenho e da vitória na Salga, em finais de 1581, em resultado de uma manifestação dos seus opositores de que pretendiam uma política mais enérgica, D. António resolveu substituir Ciprião de Figueiredo por Manuel da Silva Coutinho, por ele elevado a conde de Torres Vedras.

Em consequência dessa decisão do Prior do Crato, em Fevereiro de 1582 Ciprião de Figueiredo entregou a governação da Terceira a Manuel da Silva, sendo compensado por D. António com o título de conde de São Sebastião, vila próxima do local onde no ano anterior se travara a Batalha da Salga. O seu substituto pretendeu nomeá-lo almirante de uma esquadra para a conquista de Cabo Verde, mas Ciprião de Figueiredo declinou por desconfiar que simplesmente se pretendia afastá-lo do centro das decisões.
Após o desastre sofrido na Batalha Naval de Vila Franca, travada a sul da ilha de São Miguel em 26 de Julho de 1582, D. António, que se refugiara na Terceira, levou Ciprião de Figueiredo para França. Exilado em França, como o próprio D. António, em 1601 fez uma viagem a Itália. Terá gozada da estima do rei Henrique IV de França e de Fernando I, grão-duque da Toscânia.
É o patrono do Regimento de Guarnição n.º 1, aquartelado na Fortaleza de São João Baptista do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo.


Durante muitos anos a Escola Preparatória de Angra do Heroísmo teve Ciprião de Figueiredo como patrono, sendo o nome hoje perpetuado numa rua daquela cidade. 
A companhia aérea Azores Airlines baptizou o seu primeiro Airbus A330 com o nome "Ciprião de Figueiredo".

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Cais da cidade de Angra do Heroísmo ilha Terceira Açores





O antigo Cais da Alfândega localiza-se na parte Norte da baía de Angra do Heroísmo, na freguesia da Sé, em pleno centro histórico da cidade e Concelho de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores.
Constitui-se no mais antigo cais da cidade de Angra, estabelecido pouco depois da chegada dos primeiros povoadores, eventualmente por volta de 1470 ou 1500, altura em que foram promovidas grandes obras por determinação de Álvaro Martins Homem.
O cais dava comunicação directa com as Portas da Cidade, via Pátio da Alfândega, o Hospital da Misericórdia (na Rua de Santo Espírito, e o edifício da Alfândega, onde eram registados e armazenados produtos e mercadorias.
Aqui aportavam as embarcações em trânsito de, e para, o Ultramar carregadas com mercadorias e variedade de riquezas.

A imagem mais antiga que se conhece mostra o cais e a principal porta da cidade, cerca de 1590.
O ancoradouro ficava junto à costa do Monte Brasil, a reparação naval era feita na "ribeira"' com acesso pela Rua de São João e, fortificada, vê-se uma porta conduzindo à Rua Direita e à cidade, ficando a nascente as bicas de água de abastecimento aos navios.
Dos 100 anos antecedentes conhece-se pouco. Primeiro foi só um cais, depois a porta que teve, sobretudo, funções de garantia de cobrança dos direitos da alfândega. Esta porta foi fortificada, se bem que a grande protecção fosse dada, desde meados do século XVI, pelas fortificações á entrada da baía: Forte de São Sebastião a nascente, O Forte de São Benedito e logo depois o Forte de Santo António, a poente, mandadas fazer por recomendação do Provedor das Armadas Pero Anes do Canto.
Cerca de 1610 fizeram-se grandes reparações. A porta enobreceu-se e tudo se tornou conforme aos grandes negócios que faziam da cidade a universal escala do mar do poente.
O pátio da Alfândega, rodeando por nascente e sul por edifícios, favorecia os comerciantes que, de cima da muralha podiam ver as mercadorias em baixo no Cais da Alfandega, que era mais baixo e com outra configuração.

Esta porta durou cerca de 250 anos da vida, pois, em 1 de Novembro de 1755 o maremoto originado pelo terramoto de Lisboa, ao passar pela Baía de Angra do Heroísmo, passou acima da porta do mar e chegou à Praça Velha. No retorno arrastou consigo as estruturas da porta.
Criada a Capitania Geral dos Açores em 1766, por decreto de el-rei D. José I de Portugal e chegado a Angra o primeiro capitão-General, D. Antão de Almada, logo manda que o sargento-mor João António Júdice tire o plano de reedificação do cais, aproveitando-se o que pudesse conservar-se.
Data dessa época a segunda grande modificação da relação de Angra com o mar, ditando o aspecto geral até hoje. Assim, já entre o barroco e o neo-clássico, surge um pátio amplo, ao nível da Rua Direita, ligado ao cais por duas largas escadarias em ferradura, rematadas em cima por duas portas com arcos de pedra. Em fundo a Igreja da Misericórdia datando de 1746.
As bicas de abastecimento dos barcos foram transferidas para um chafariz de duplas pilastras laterais, ao centro das escadarias.
A guarda ainda se mantinha, sempre mais por razões administrativas que de defesa, e a porta de acesso de viaturas ficou em frente á Rua de Santo Espírito. O cais recebe novo revestimento sendo elevado e alargado.

A porta do mar, as casas da guarda e tudo o que fizera aquele lugar é enterrado debaixo do entulho destinado a apoiar a nova obra.
Posteriormente, no século XIX, chegou a receber embarcações a vapor embora estas, muitas vezes, tivessem de permanecer mais afastadas do porto devido à já então fraca profundidade das suas águas, causado pelo assoreamento da baía.

Aqui pisou pela primeira vez território açoriano, a 3 de Março de 1832, Pedro IV de Portugal.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Quem partiu da cidade da Ribeira Grande Ilha de S. Miguel Açores para o Brasil



1-  André da Costa Leite (Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Portugal, ? - Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, c. 1781) casado com Clara Maria de Sousa.

2-  António Muniz Leite (Fenais da Ajuda, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores, Portugal, 26 de Fevereiro de 1708 - Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 14 de Dezembro de 1810) casado com Francisca Fagundes de Oliveira Leite.

3- Francisco de Arruda Botelho (Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Portugal, c. 1641 - Santana de Parnaíba, São Paulo, c. 1684) casado com Maria de Quadros.

4-  Manuel da Silva Pacheco (Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, Portugal, ? - Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 3 de Junho de 1825) casado com Benvinda Gomes Martins e Bernarda Gomes Jardim.


5-  Paulo Machado de Sousa (Ribeira Grande, Ilha do Faial, Açores, Portugal, ? - Brasil, ?) casado com Anna Maria de São José.

6-  Sebastião Arruda Botelho (Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Portugal, c. 1642 - Brasil, ?) casado com Isabel de Quadros.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

O porquê do nome Canada da Salga na freguesia dos Biscoitos ilha Terceira Açores





O nome desta via de comunicação, segundo reza a tradição popular deve o seu nome a um acontecimento que ocorreu durante o tempo da dominação filipina. Quando as forças castelhanas invadiram a freguesia dos Biscoitos e foi travado um combate tão violento que o sangue dos soldados correu de forma a tornar-se necessário espalhar sal, para se evitar uma pandemia de peste que segundo se acreditava na altura poderia provir simplesmente do sangue espalhado.

domingo, 19 de maio de 2019

António Lourenço da Silveira Macedo historiador da ilha do Faial


António Lourenço da Silveira Macedo (Horta, 11 de Setembro de 1818 – Horta, 18 de Dezembro de 1891), foi um historiador e político da ilha do Faial, Açores, autor da primeira obra historiográfica inteiramente dedicada àquela ilha. Foi ainda reitor do liceu da Horta, procurador à Junta Geral do Distrito da Horta, exercendo ainda diversos cargos públicos na administração da sua ilha.
António Lourenço da Silveira Macedo nasceu na Horta, Faial, a 11 de Setembro de 1818, filho de Lourenço António da Silveira Macedo e de sua mulher Maria delfina da Silveira Goulart, ambos
naturais da vila da Madalena, da fronteira ilha do Pico.

Filho de pai operário, foi com grande sacrifício que a família lhe propiciou uma educação literária que permitiu que, por Decreto de 3 de Dezembro de 1839, acedesse ao lugar de professor régio da cadeira de latim nas Lajes do Pico, que regia interinamente a desde 1837. Em 1844 foi transferido para a Horta, obtendo provisão definitiva no ano de 1848.

Sendo professor régio de latim, foi integrado no Liceu criado na Horta aquando da reforma do sistema educativo, já que a sua criação implicou a extinção das anteriores cadeiras-régias. No Liceu, Silveira Macedo foi encarregue das disciplinas de Matemática e Filosofia, iniciando uma longa carreira docente naquela instituição.

Ocupou sucessivamente os lugares de secretário e bibliotecário do Liceu da Horta, sendo depois nomeado seu reitor.

Sendo um destacado professor liceal, participou em múltiplas iniciativas cívicas e políticas, exercendo funções de destaque na Junta Geral, na comissão administrativa do porto artificial da Horta, na comissão de agricultura, com especial destaque na luta contra a filoxera que então arruinou as vinhas do Pico.

Silveira de Macedo foi um activo publicista, editando diversos jornais e publicando múltiplos artigos na imprensa da época. também se dedicou à produção de manuais escolares para os alunos do Liceu, que depois de aprovados, eram impressos localmente. Cultivou também os estudos históricos e biográficos, sendo a sua obra mais conhecida a "História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta", publicada em três volumes, na Horta, a partir de 1871.


Por Decreto de 12 de Julho de 1833 foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo, pelos relevantes serviços prestados à sua terra.

Silveira Macedo faleceu na Horta, localidade onde tinha nascido e viveu a maior parte da sua vida, a 18 de Dezembro de 1891.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A acção inquisitorial nos Açores aos judeus


Em 1592, o Inquisidor nos Açores Pe. Jerônimo Teixeira Cabral, denuncia a infiltração de cristãos-novos na Igreja como clérigos. A primeira ac
ção inquisitorial nos Açores foi em 1555, quando o bispo de Angra, D. Frei Jorge de Santiago mandou verificar vários casos de Judaísmo, mandando prender alguns homens e enviá-los para Lisboa. Dois anos após foram enviadas para Lisboa 22 pessoas acusadas de práticas judaicas. São elas: Ana Lopes; André Moniz; António Fernandes; Branca Dias, Cecília Rodrigues, Diogo Lopes; Fernão Lobo; Francisco Lopes; Mestre Gabriel; Gabriel de Andrade; Henrique Ribeiro; Inês Dias; Isabel Mendes; Isabel Moniz; Isabel Pinta; João Tomás; Jorge Álvares; Manuel Álvares; Rui Dias; Rui Fernandes e Violante Henriques. Logo seguiram para a capital da Metrópole: Pero Galvão; Antonio Carvalhais; Jácome Gonçalves e Maria Dias. Já em 1608 começava a ser montada a rede de funcionários inquisitorial. Iniciando pelos Comissários do Santo Ofício, e logo em 1612 a dos Familiares (os esbirros mais infames). Entretanto, desde 1597, já actuava como Comissário da Inquisição em Ponta Delgada o pe. Luís Pinheiro, reitor da residência da Companhia de Jesus e, como primeiro Familiar, o tanoeiro Pero Fernandes, residente em Ponta Delgada. E, em Angra, actuava como Comissário o Pe. Francisco Valente, reitor do Colégio Jesuíta. Para a Ilha do Faial, somente em 1749 foi nomeado Comissário o frei José de Santo António de Pádua. Existiram comissários do Santo Ofício no arquipélago açoriano até 1806 quando, então, perseguiam os franco-maçons.

Outros burocratas da Inquisição eram os Notários, os Qualificadores e os Visitadores das Naus. Havia também o trabalho de redução de estrangeiros, que procuravam converter para o catolicismo como foi o caso da família inglesa Fisher, residente no arquipélago. A primeira Visitação ao arquipélago foi a de D. Marcos Teixeira entre 1575-1576, o mesmo que esteve no Nordeste do Brasil. Ele visitou as ilhas de São Miguel, Terceira e Faial. A segunda foi em 1592, feita por D. Jerônimo Teixeira Cabral, tendo visitado as ilhas Terceira e São Miguel. Já a terceira e derradeira visita, foi realizada entre 1619-1620, por D. Francisco Cardoso do Torneio, que esteve nas ilhas de São Miguel e Terceira. Do total de 354 pessoas denunciadas, 172 foram por Judaísmo que, somadas às 27 prisões de 1555-1557, totalizam 199 cristãos-novos denunciados nos Açores. Foram gerados 114 processos entre 1557 e 1802, envolvendo 112 pessoas, sendo apenas 26 pela "heresia judaica". E, destes, somente 10 foram enviados a Lisboa, e apenas três condenados à morte na fogueira. Os condenados à pena capital foram: Leonor Marques, em 1584; António Borges, em 1559 e Maria Lopes, em 1576.
Os cristãos-novos encontraram nas Ilhas Atlânticas um local privilegiado para seu estabelecimento, uma vez que, ali, podiam praticar mais ou menos, livremente, seus rituais cripto-judaicos, pelo menos, longe da Inquisição, que só esteve em três das nove ilhas, como vimos.

 Essas crenças e costumes, resumidamente, eram os seguintes: dizer que a Lei de Moisés é mais suave e mais delgada que a de Cristo; invocar o Deus de Israel; a guarda do sábado, o Shabat, não trabalhando nesse dia; limpar candeeiros e neles colocar azeite limpo e torcidas novas às sextas-feiras, vestindo camisas lavadas e lançando lençóis limpos na cama, além de casarem nesse dia da semana; dizer orações em língua hebraica; a recusa em comer carne de porco, lebre, coelho, aves asfixiadas ou afogadas e peixe sem escama; tirar a gordura e o sangue da carne; refogar os alimentos com azeite; degolar animais cortando-o de alto a baixo com uma faca afiada e rezando uma oração e deitando fora o sangue do animal; fazer cerimonias judaicas como o jejum da Rainha Ester ou do Purim; o jejum de Yom Kippur, jejum Maior ou do Perdão, em Setembro; a Páscoa do pão ázimo, o Pesah ou do cordeiro, em Março; usar alguidar ou louças e utensílios novos nesses dias de festa. Além desses costumes, eram praticados os seguintes: carpir meneando o corpo e amortalhar os defuntos colocando-lhe uma moeda na mão; despejar toda a água existente na casa quando falecia alguém por acreditar que o anjo da morte lavasse a espada com que matara o falecido; lançar uma moeda ou peça de ouro na água do banho dos recém nascidos; olhar para o oriente meneando o corpo; a bênção judaica e a circuncisão. E, também, o conhecimento de lendas e histórias judaicas. Toda essa tradição era transmitida à família pela via feminina. A condenada à morte na fogueira Maria Lopes, denunciada pelo filho Fernão Lopes, de praticar ritos judaicos tinha, entre seus pertences, rezas escritas em hebraico que, traduzidas, se verificou tratar, dentre outras, do Shemá Israel (Ouve ó Israel), um trecho: "Ouve ó Israel. Adonai é nosso Deus. Adonai é uno. Bendito é o nome para a eternidade e perfeição".


Nem os nobres escaparam da perseguição da Inquisição nos Açores. D. Rodrigo da Câmara, Conde da Vila Franca, preso em 1650, em São Miguel, foi condenado à prisão perpétua com a perda de honras e títulos. D. José, seu filho, conseguiu herdar o título mudado para Conde da Ribeira Grande. É sabido que os Câmaras descendem todos de João Gonçalves Zarco, natural de Matosinhos, Portugal, que adoptou o sobrenome Câmara de Lobos e depois somente Câmara, referindo-se a uma gruta na Ilha da Madeira que era refúgio dos leões marinhos, descobridor da Ilha da Madeira e Porto Santo. Os Zarcos descendem de família judaica espanhola, provavelmente fugida dos massacres de Sevilha de 1391. Em Portugal, convertidos ao cristianismo, logo se tornaram fidalgos e obtiveram mercês reais ao entrarem para a Ordem de Cristo, a antiga Ordem dos Templários, sediada no castelo de Tomar. Exactamente nessa cidade existe, ainda hoje, uma das duas sinagogas reconhecidas oficialmente como representantes dos antigos templos das comunidades hebraicas. A outra, é a sinagoga de Castelo de Vide, ambas transformadas em museus judaico-portugueses. O grande Fernando Pessoa, descendente de Martinho da Cunha Pessoa de Oliveira, pertencente a uma numerosa família de cristãos-novos judaizantes do Fundão, tinha conhecimento de sua origem, daí a explicação para seus heterônimos.