terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Estalagem da Serreta na ilha Terceira Açores


A Estalagem da Serreta é uma das obras arquitectónicas mais emblemáticas dos Açores é particularmente conhecida por ter sido o ponto de encontro entre Marcelo Caetano pela Parte de Portugal, Georges Pompidou, pela parte da França e de Richard Nixon pela parte dos Estados Unidos, a quando da cimeira Pompidou/Nixon que se realizou na ilha Terceira em Dezembro de 1971.

Localiza-se junto à Mata da Serreta, uma zona de forte implatação Florestal na freguesia da Serreta.
Trata-se de uma obra do arquitecto João Correia Rebelo e hoje está completamente abandonada.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Vulcão submarino das freguesias da Serreta e Raminho de 1867, a procissão dos Abalos


A freguesia do Raminho, na ilha Terceira, sai à rua numa procissão de penitência que é também um pedido para que a terra não trema, uma tradição que se repete no sábado.
Às 6:30, antes do início de um fim de semana de descanso ou, nalguns casos, de mais um dia de trabalho, a população junta-se para rezar e lembrar as crises sísmicas que afectaram a ilha noutros tempos.

Estima-se que a primeira procissão tenha ocorrido em 1883, três anos depois de o corato do Raminho ter sido elevado a paróquia, e desde esse ano que todos os dias 31 de maio começam ou terminam com o mesmo ritual, mesmo que calhe num dia de semana.
A "procissão dos abalos", como é conhecida, nasceu da aflição das pessoas perante uma crise sísmica, despoletada pelo rebentar de um vulcão submarino ao largo da zona este da ilha Terceira.
A promessa feita durante a crise sísmica foi passada de geração em geração e os sismos frequentes ajudaram a cimentar a motivação.

A procissão não leva filarmónica, por isso as pessoas cantam repetidamente uma avé-maria e uma Santa-Maria e no regresso repetem oito vezes um cântico, invocando Deus pai, Deus filho, o Espírito Santo e a Virgem Maria, à semelhança do que aconteceu na primeira procissão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Thomas Hickling na ilha de S. Miguel Açores


Thomas Hickling  nasceu em Boston, 21 de Fevereiro de 1745  e faleceu em  Ponta Delgada, 1834. Foi um abastado comerciante norte-americano, vice-cônsul dos Estados Unidos (1795-1834) para as ilhas de São Miguel e de Santa Maria e um dos grandes impulsionadores do comércio da laranja dos Açores para a Grã-Bretanha (que esteve na origem de um do período de grande prosperidade nas ilhas – o ciclo da laranja).
Construiu o palacete onde hoje funciona o Hotel São Pedro em Ponta Delgada e foi um dos pioneiros do desenvolvimento do termalismo no Vale das Furnas ilha de São Miguel, onde construiu o Yankee Hall, núcleo inicial do actual Parque Terra Nostra.
Deixou numerosa descendência, entre a qual se conta William Hickling Prescott (historiador americano), Roberto Ivens (oficial da Armada e explorador de África), Guilherme Ivens Ferraz (oficial da armada que se distinguiu nas campanhas coloniais de António Enes a ponto de ser condecorado com a Ordem da Torre e Espada) e Artur Ivens Ferraz (general, várias vezes ministro e presidente do conselho de ministros num dos governo da ditadura militar que se seguiu ao 28 de Maio de 1926).
Thomas Hickling casou em 1764, aos 19 anos, com Emily Green, de quem teve dois filhos: William e Catherine. Sendo Thomas Hickling partidário da revolução independentista americana, entrou em colisão com as opiniões lealistas do pai, William Hickling, que, temendo que o jovem viesse a ser preso e a colocar toda a família em posição difícil, o terá enviado para Ponta Delgada como delegado comercial no âmbito da nascente expansão do comércio marítimo da Nova Inglaterra. Partiu em 1769, deixando a mulher e os dois filhos em Boston.

Em 1778, após a morte da primeira mulher, que nunca mais voltara a ver, casou com Sarah Falder, uma jovem de Filadélfia que, com os pais, arribara à ilha de São Miguel após um naufrágio.
Foi um dos pioneiros na cultura e comércio da laranja que dos Açores exportava para a Grã-Bretanha e o Báltico, aproveitando o chamado ciclo da laranja que floresceu nos Açores no último quartel do século XVIII e primeira metade do século XIX. Fez fortuna, tornando-se rapidamente num dos homens mais ricos do seu tempo nos Açores.
Em 1795, foi nomeado por Thomas Jefferson, então Secretário de Estado, vice-cônsul dos Estados Unidos (cargo que o filho continuou), iniciando a mais antiga representação diplomática americana em funcionamento contínuo em todo o mundo. Posteriormente foi também nomeado cônsul da Rússia.
Para além dos filhos que deixou em Boston, Thomas Hickling teve larga descendência (contam-lhe 14 filhos) na ilha de São Miguel.

Com gosto requintado, investiu na construção de várias moradias, a mais conhecida das quais é o palacete de estilo inglês (georgiano colonial começado a construir em 1812) fronteiro à igreja de São Pedro em Ponta Delgada onde hoje funciona o Hotel São Pedro. Este palacete foi consulado americano e, durante a presença de forças navais americanas em Ponta Delgada no decurso da I Guerra Mundial, esteve ali instalado o Almirantado Americano e a residência oficial do seu comandante, o contra-almirante Herbert Owar Dunn, que deu o nome ao largo fronteiro.
Nas Furnas construiu uma residência de verão, rodeada por um largo jardim (hoje o parque Terra Nostra).
A sua residência principal foi a da Quinta da Glória, em Rosto de Cão, actual Livramento. Construída por volta de 1802, para ela mandou vir mestres dos Estados Unidos que colaboraram com artesãos locais. Tinha um dos mais bonitos jardins de S. Miguel, hoje totalmente desaparecido, e apesar da degradação e abandono a que está votada, continua a ser, ainda hoje, um magnífico exemplar de arquitectura civil pela beleza, funcionalidade e qualidade de construção.
Nunca mais voltou aos Estados Unidos. Thomas Hickling faleceu em 1834 e está enterrado no Cemitério dos Ingleses de Ponta Delgada, deixando numerosa descendência nos Açores, Portugal, Estados Unidos e África do Sul.

O comércio da laranja levou Thomas Hickling ao vale das Furnas. Impressionado pela beleza do local e pelo potencial das águas termais que ali abundam, desde 1770 (o seu nome a esta data foram por ele gravados numa rocha ainda hoje existente junto aos geysers das Caldeiras) que se empenhou no desenvolvimento daquele vale como estância de termal, de veraneio e lazer.
No início do século XIX construiu no centro do vale, nas margens da ribeira de água quente férrea ali existente, um pavilhão, jardim e tanque de água férrea a que chamou “Yankee Hall", pequena construção inspirada no Trianon. São desse tempo vários exemplares de araucária, de tulipeiro e sequóia que formam o núcleo antigo do actual parque Terra Nostra, hoje anexo ao Hotel art déco (construído em 1935 mas totalmente reconstruído em 1997) com o mesmo nome.
A partir de 1842 a propriedade passou a pertencer ao visconde da Praia, que, com o filho, o 1.º Marquês da Praia, iniciou a ampliação e melhoramento do parque e construiu a actual Casa do Parque no lugar do original Yankee Hall. Nessa casa foi recebido o rei D. Carlos aquando da visita que fez aos Açores em 1901.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ciclo da laranja nos Açores


Dadas as condições ambientais os laranjais rapidamente tem um acento o desenvolvimento, sendo que já no século XVII a cultura da laranja mostra predomínio sobre as restantes. É nos princípios do século XVIII que acontecem as primeiras exportações deste fruto para a Europa continental e em especial para a Inglaterra.
A cultura da laranja nas ilhas dos Açores obrigou ao desenvolvimento de novas técnicas principalmente destinadas à protecção das árvores das inclemências do clima, principalmente dos ventos e onde isso se justificava, da forte e negativa influencia do mar. Essas novas técnicas levaram ao moldar da natureza às necessidade que a cultura impunha. Assim foram levantados altos muros de pedra solta que ainda hoje, séculos depois do fim do Ciclo da Laranja ainda perduram em muitos locais das ilhas. Foram também plantadas como sebes várias espécies arbóreas em que predominaram a endémica Myrica faya (faia-da-terra) e o incenso (Pittosporum undulatum). Foram também plantados muitos pinheirais que tiveram uma dupla utilidade uma vez que além de servirem de abrigo serviram também como matéria-prima para a confecção de caixas usadas para o transporte da laranja exportada.
A exportação da laranja para os mercados europeus num tempo em que poucos eram os caminhos existentes foi muitas vezes difícil. O transporte do fruto era feito em burros ou cavalos, e quando era possível em carros de bois, isto sempre tendo em atenção as dificuldades inerentes à fragilidade do fruto.

Muitas vezes, e quando a carga se declarava ser impossível de transportar por um só animal e não era possível usar outro meio de transporte usavam-se dois burros emparelhados no que ficou localmente designado como pau e corda. Esta expressão na prática significa a forma como as cargas eram aplicadas: Assim as cargas eram dependuradas em cordas, estas amarradas a uma ou duas barras de madeira, conforme as necessidades. Nas pontas dessas barras de madeira passavam as albardas dos dois animais emparelhados.
Não se deve também descurar que os problemas do transporte do fruto por terra eram os únicos problemas encontrados, visto que o seu transporte por mar também tinha acentuado o problemas e perigos. É de referir as tempestades que assolavam os navios, sendo que é desconhecido o número de embarcações destinadas ao transporte da laranja que naufragaram de e para o seu destino.
No ano de 1834 os laranjais sofreram duas infestações que deram inicio ao fim desta cultura: Possivelmente o mais conhecido e que maiores estragos fez foi o Coccus hesperidum, vulgarmente conhecido como cochonilha. Este insecto foi introduzido nos Açores em dois limoeiros que foram enviados para a Ilha do Faial, tendo depois e a partir desta ilha expandindo-se para as restantes ilhas dos Açores.

O outro grande mal que contribuiu fortemente para a destruição dos laranjais foi a doença que conduz à perda prematura das laranjas, conhecida como a "lágrima", e que leva ao deterioramento da qualidade do fruto e da própria árvore.
Foi durante o século XIX que a cultura da laranja e a respectiva comercialização atingem o seu apogeu e também o seu declínio facto que ocorreu primordialmente entre 1840 e 1875. Factos com que também se encontram relacionados segundo historiadores da história dos Açores, a crise económica da grande depressão económica Mundial que ocorreu entre 1873 e 1896 e que se fez sentir na economia com a diminuição da importação de laranja a partir do estrangeiro.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Manuel António Vasconcelos, fundador do Açoriano Oriental

Manuel António Vasconcelos,  nasceu na  Bretanha, Açores a 5 de Fevereiro de 1786 e  faleceu em  Rabo de Peixe, 10 de Outubro de 1844, foi um deputado e jornalista que se destacou na defesa dos princípios da Constituição de 1822. Foi o fundador do periódico Açoriano Oriental,  que ainda se publica na cidade de Ponta Delgada, Açores.
Nasceu no lugar de Pilar da Bretanha, da então freguesia da Bretanha, filho do sargento-mor Manuel Joaquim de Vasconcelos, morgado, natural de Pilar da Bretanha, e de sua esposa, Gertrudes Vicência da Câmara e Melo, natural de Rabo de Peixe. Foi irmão do sargento-mor José Maria da Câmara Vasconcelos. Sendo o mais velho dos doze filhos do casal, ficou por isso herdeiro do vínculo da Lomba Grande, instituído pelo padre João de Sousa Vasconcelos, mas recusou a herança por escritura lavrada no tabelião de Ponta Delgada pela qual se comprometeu a compartilhar alimentos e parte dos bens com a mãe e os irmãos.  Foi o último administrador do vínculo, o qual foi abolido por sentença de 11 de Junho de 1841.
Após uma breve incorporação no Batalhão Cívico, ingressou vida política como vereador da Câmara Municipal de Ponta Delgada, cargo que exerceu de Fevereiro de 1831 a Abril de 1836, sendo eleito deputado pela Província Oriental dos Açores nas eleições gerais de 20 de Novembro de 1836 para a legislatura de 1837-1838.  No Parlamento ligou-se ao sector mais radical do liberalismo, defendendo a Constituição de 1822 e assumindo-se como um dos mais notáveis defensores do setembrismo radical. Considerado um grande orador, de discurso exaltado, rejeitava quaisquer concessões em relação aos princípios da Constituição de 1822.

Foi novamente eleito deputado, desta feita pelo círculo de Ponta Delgada, para a legislatura de 1838-1840. Na qualidade de deputado, pertenceu a várias comissões parlamentares e lutou pela extinção dos morgadios e vínculos, defendeu a aplicação de alguns bens deixados pela extinção das ordens religiosas e pelas vendas dos conventos para a criação de portos francos na ilha de São Miguel, pugnou pela construção de um novo hospital e de uma doca em Ponta Delgada e pela elevação da Povoação e das Capelas à categoria de vilas.
Enquanto esteve na capital foi também advogado pro visionário
, recusando vários convites para exercer outros cargos políticos. Por motivo de doença regressou a São Miguel, em 1844.
Na área do jornalismo em 1835 fundou, com o seu irmão José Maria da Câmara Vasconcelos, o Açoriano Oriental, jornal que redigiu durante alguns anos. Em 1838, já deputado, fundou em Lisboa, o jornal O Tempo, conjuntamente com José Estêvão de Magalhães.
Considerado o primeiro jornalista profissional em São Miguel, os princípios deontológicos que então imprimiu mantêm-se actuais e anteciparam as modernas concepções de direito de resposta, segundo Mário Mesquita (Açoriano Oriental, 1995).

Foi membro da Maçonaria, pertencendo à Loja 2 de Agosto de 1831, de Lisboa, conhecida pelo nome de Os Gatos.
Foi homenageado em 1995, por ocasião do 160.º aniversário do Açoriano Oriental, foram-lhe prestadas várias homenagens: o seu nome passou a figurar numa artéria em Ponta Delgada, na escola primária do Pilar da Bretanha e no Jardim da Povoação.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Batalha Naval de Vila Franca na ilha de S. Miguel Açores


A Batalha Naval de Vila Franca,  foi um recontro travado no dia 26 de Julho de 1582, a sul da ilha de São Miguel, Açores, entre uma força luso-francesa, comandada por Filippo Strozzi, e uma armada espanhola (mas que incluía boa parte da armada portuguesa), comandada por D. Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz, no contexto da guerra civil que se seguiu à aclamação de D. António I e à entrada de Filipe II de Espanha na posse do trono português. As forças luso-francesas foram derrotadas, D. António foi obrigado a refugiar-se na ilha Terceira, seguindo-se um enorme massacre em Vila Franca do Campo, sendo o maior de que há registo nos Açores.
Consolidada a sua posição em Portugal e segura a obediência do país, Filipe II de Espanha tinha os últimos apoiantes do pretendente ao trono D. António I dispersos pela Inglaterra e França, com o único núcleo coeso encurralado nos Açores. E mesmo nos Açores, as ilhas de Santa Maria e de São Miguel já lhe tinham jurado fidelidade, tendo à frente o bispo e o capitão do donatário em São Miguel.
Desejoso de eliminar aquele foco de resistência, e não podendo prescindir da posição geoestratégica do arquipélago no contexto do seu império ultramarino, já que a volta do largo obrigava a que os navios vindos das Caraíbas, do Atlântico Sul e da Índia demandassem aquelas latitudes, prontificava maiores forças e fazia grandes levas de gente em seus Estados para se opor às pretensões açorianas de D. António.

Tendo como único território sob o seu domínio sete ilhas nos Açores, com a Terceira à cabeça, e obtido o apoio, embora não oficial, da rainha-mãe Catarina de Médicis, que fornece o grosso das tropas e os navios, D. António parte de Belle-Isle, na costa bretã, a 26 de Junho de 1582, acompanhado por uma armada de cerca de 50 navios grandes e 20 pequenos, com 6 000 homens de guerra, capitaneada por Filippo Strozzi, ex-marechal de França, tendo por Condestável D. Francisco de Portugal, 3.º conde de Vimioso. Num golpe de duplicidade, que custaria a vida às centenas de súbditos franceses que foram aprisionados e depois executados como corsários, a corte francesa optou por manter a paz com Castela, pelo que todos os franceses que partiram na expedição, incluindo Filippo Strozzi, o fizeram como mercenários. Oficialmente a França e Castela estavam em paz.
A armada partiu a 10 de Julho imediato, ficando ainda em organização nos portos da Andaluzia uma força adicional que, sob o comando de D. Juan Martínez de Recalde, se lhe deveria juntar na ilha de São Miguel tão breve quanto possível.

Porém não sabendo Filipe I qual o ponto a que se dirigiria a armada francesa, se em direitura aos Açores, ou se tentaria desembarcar entre o Douro e o Minho, ordenou extraordinárias levas por toda a Espanha, e as mandou recolher em Portugal, entregando-as a cargo de D. Fernando de Toledo para que com elas guardasse as costas marítimas.