sábado, 5 de dezembro de 2015

Maria da Luz Gomes, a primeira mulher a usar calças na ilha das Flores Açores


Nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 30 de Janeiro de 1915, filha de Francisco Coelho Gomes e de Maria do Rosário Gomes, onde residiu parte da sua vida.
Como não aproveitou convenientemente a escola primária, a sua instrução era pouca, mas, o suficiente para desenvolver as suas capacidades intelectuais, graças à sua privilegiada inteligência e à excelente memória.
Figura atípica da ilha das Flores, foi sempre uma trabalhadora incansável, dedicando-se desde muito jovem, quer aos trabalhos domésticos das mulheres, quer aos trabalhos rurais dos homens e, sobretudo, à pesca.
Para além de fumar desde jovem, vestia geralmente roupas de homens – numa altura em que eram poucas as mulheres açorianas que ousavam fazê-lo publicamente. Frequentava qualquer tipo de taberna, bebendo lado-a-lado com os homens, sobretudo depois de se separar do marido. No seu tempo as mulheres, para além de não fumarem, não tomavam bebidas alcoólicas, nem frequentavam cafés e muito menos tabernas.
Dela o escritor faialense, Manuel Greves – que viveu temporariamente nas Flores – para evidenciar a sua força e teimosia, escreveu o seguinte em “Aventuras de Baleeiros”: “E certo é, também, que [o mar] não venceu arrancar de cima dum bico de rocha, numa tarde, as mãos fortes, pegadas a uns músculos rijos, de Maria da Luz, quando andava às lapas, na costa da Fazenda das Lajes das Flores. A corajosa mulher, agarrada ao rochedo, praguejava às vagas violentas que a cercavam:”
“ - Ó alma do diabo! Tu serás mais forte do que eu... mas, não és mais teimoso!...”
“E a Maria salvou-se”.

Foi casada com o fazendense Francisco Rodrigues Azevedo. Do casal nasceram as filhas Jesuína (já falecida), Alzira e Judite, pelo que era ela que, com esmerado zelo e amor, cuidava da sua educação, ao mesmo tempo que se esforçava pela manutenção da vida económica do seu lar. As filhas, depois de casadas, viriam a emigrar para o Canadá, na companhia do pai, onde actualmente residem e onde também existem netos que ela adorava.
Durante a sua vida passou por diversas actividades. De início, quando residia na Fazenda, acumulando com a lida da casa, dedicava-se à actividade rural da agro-pecuária, fazendo-o com o conhecimento e a resistência física de um homem. Com a ajuda do marido, lavrava os seus terrenos, semeava e tratava do milho e das demais culturas agrícolas, ordenhava vacas, transportava às costas lenha e alimentação para os animais, alternando essas trabalhos com a actividade da pesca. Recordo-me que foi ela quem me ensinou a lavrar, no Cerrado Grande, com arado de “aiveca”, numa altura em que, devido à minha juventude, meu pai não tinha paciência para me deixar “dar um reguinho” – orgulho de qualquer jovem rural do meu tempo.
Certamente para facilidade do trabalho que fazia começou a usar calças de homem desde jovem. Por esse motivo dava nas vistas, constando que, por essa razão, chegou a ser detida pela polícia na ilha Terceira, no tempo em que eram proibidos os “travestis” na via pública, valendo-lhe então o Chefe da PSP, António Gonçalves, também ele um florentino natural de Lajes das Flores que muito bem a conhecia.

Nunca a vimos usar saia, salvo no dia da festa religiosa por ela custeada, na freguesia da Fazenda, no cumprimento anual de uma promessa. Vestia-se assim para nesse dia ir à igreja assistir às cerimónias religiosas que nela se realizavam – fazendo-o com o respeito e a devoção que sempre tivera pela religião Católica.
Mais tarde viria a fixar residência na Vila de Baixo, em Lajes das Flores, mesmo junto do Porto, onda se dedicava quase exclusivamente à pesca e à venda de pescado. A lida da casa aborrecia-a, embora por vezes fosse forçada a fazê-la. Para poder ir legalmente para o mar, as autoridades marítimas chegaram a passar-lhe uma cédula pessoal, já que sua actividade piscatória era essencialmente feita por mar, com uma lancha que chegou a possuir.
Discutia com os companheiros de pesca e com quaisquer homens sobre os problemas e as notícias do dia-a-dia, já que era possuidora de um espírito curioso e contraditório, dedicado a todo o género de actualidades.
Geralmente não tinha interesse pelas conversas das mulheres, situação que fazia com que estas lhe respondessem de igual forma. Animava-se com as discussões que mantinha, parecendo provocá-las para aprender e saber mais.

Odiada por uns e tolerada por outros, tinha especial vocação para se envolver em questões judiciais e polémicas. Era também uma grande frequentadora, como assistente, dos julgamentos realizados no Tribunal das Flores. Certamente por esse motivo livrava-se bem das questões judiciais, que gostosamente provocava, defendendo-se nelas com astúcia.
Apesar de ser temida por alguns, pela sua falta de rigor e pelo seu feitio polémico, em certas ocasiões, era, contudo, muito caridosa e prestável para servir os amigos e todos os que dela necessitassem.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Pintor Domingos Maria Xavier Rebelo


Domingos Maria Xavier Rebelo nasceu no dia 3 de Dezembro de 1891, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.
Estudou no Instituto Fisher, em Ponta Delgada, tendo, desde muito cedo, revelado inclinação para a pintura e desenho. Ingressou depois na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, antecessora da Escola Secundária Domingos Rebêlo, no curso de desenho.

Com apenas 13 anos, expôs a sua primeira obra, numa montra de uma loja no centro da cidade de Ponta Delgada. O seu trabalho impressionou os Condes de Albuquerque que se ofereceram para pagar os seus estudos artísticos. Com 15 anos, mudou-se para Paris, onde frequentou a Académie Juliene e um curso livre na Académie de la Grande Chaumière. Ao longo de seis anos, conviveu com grandes mestres franceses e pintores portugueses, que passaram pela capital francesa, como Amadeu de Sousa Cardoso e Emmerico Nunes.

Em 1913, regressou a Ponta Delgada, onde permaneceu durante 30 anos. Dedicou-se ao ensino, ao mesmo tempo que pintava e expunha a sua obra na Região e em Lisboa.
A devoção pela sua terra natal está patente na grande maioria das suas obras, nas quais retratou costumes, tradições e usos do povo açoriano. Este foi o período mais rico e criativo da sua carreira. Foi distinguido com uma medalha de prata numa exposição no Rio de Janeiro, Brasil. Em 1925, ganhou a medalha da Sociedade Nacional das Belas Artes. Em 1939, participou numa exposição em São Francisco, Estados Unidos da América, onde uma das suas obras foi adquirida pela organização. Um ano mais tarde, foi nomeado director da, então, Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.
Em 1942, mudou-se para Lisboa, onde se estabeleceu definitivamente.


Foi director e vogal da Academia Nacional das Belas Artes, entre 1947 e 1970. Foi, também, director da Biblioteca-Museu do Ensino Primário, em Lisboa.
É autor de quatro painéis que decoram o Salão Nobre do Palácio de São Bento, dos frescos da Igreja de São João de Deus, em Lisboa e dos frescos que servem de fundo às salas de audiência dos tribunais de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada. Pertencem-lhe ainda algumas das obras mais emblemáticas da iconografia dos Açores. Entre elas encontra-se a obra “Os Emigrantes”.

Faleceu no dia 11 de Janeiro de 1975, em Lisboa.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

António Ferreira da Costa último mestre chocalheiro dos Açores


António Ferreira da Costa, nascido em 1935, faz parte da restrita lista dos chocalheiros nacionais que sustentou a nomeação da arte chocalheira a Património Cultural Imaterial da UNESCO", adianta a mesma nota.
Segundo a câmara, António Ferreira da Costa recebeu por herança do pai "algumas cabeças de gado", mas "cedo concluiu pela necessidade de desenvolver outras atividades, nomeadamente a de ferrador, intercalando-a mais tarde com a de estivador".
"Mantendo a sua condição básica de lavrador, foi progressivamente aumentando os efetivos da sua exploração, atividade que veria a desenvolver até à sua passagem à situação de reforma", explica a nota, informando que, em 1987, António Ferreira da Costa "iniciou a sua atividade como chocalheiro", acabando por ganhar "grande notoriedade com a titularidade de único mestre desta arte com residência no arquipélago dos Açores".
O município esclarece que, no Dia da Cidade de Angra do Heroísmo, a 21 de agosto, o chocalheiro foi distinguido por integrar a lista entregue na UNESCO.
O fabrico de chocalhos em Portugal, ofício e manifestação cultural que tem no Alentejo a sua maior expressão a nível nacional, foi hoje classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.

A decisão foi tomada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), na 10.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, a decorrer em Windhoek, capital da Namíbia, até sexta-feira.
O dossiê, liderado pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo, em colaboração com a Câmara de Viana do Alentejo e a Junta de Freguesia de Alcáçovas, no distrito de Évora, já em novembro tinha obtido parecer positivo da comissão internacional de especialistas da UNESCO, que considerou a candidatura como "exemplar".
O fabrico de chocalhos, refere o dossiê da candidatura, é uma atividade metalúrgica associada essencialmente à pastorícia e consiste "na produção de um idiofone em ferro forjado, que é suspenso ao pescoço dos animais numa coleira".
Em Portugal, há sete zonas onde ainda "moram" chocalheiros, muitos deles com idade avançada. O roteiro passa por três concelhos do Alentejo - Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo -, assim como por Bragança, Tomar, Cartaxo e Angra do Heroísmo.

sábado, 28 de novembro de 2015

Álvaro Raposo de França

Álvaro Raposo de França, nasceu em São Miguel em 1940.

Estudou naquela cidade até entrar para a Escola Superior de Belas Artes do Porto, tendo concluído o Curso Complementar de Escultura, em que trabalhou com o Mestre Barata Feyo.

 No ano lectivo de 1972/73 iniciou a docência no Ensino Secundário após o Curso de Ciências Pedagógicas na Universidade de Coimbra.

 Em 1989 concorreu à Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Em 1995 fez as provas para Professor Auxiliar, tendo permanecido assim até se aposentar em 2000 já na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.


 Paralelamente à docência trabalhava em Escultura, onde ganhou notoriedade nacional pela sua obra, tendo participado em diversas exposições colectivas e dezasseis individuais em Portugal, França, Holanda, Estados Unidos, Bermuda.

 Conta, no seu currículo, com mais de quarenta obras públicas entre estátuas, monumentos e bustos, nos Açores, no Continente e no Estrangeiro.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Jorge Manuel Rosa de Medeiros

 Jorge Manuel Rosa de Medeiros, nasceu em São Miguel em 1954.

 Recebeu vários prémios enquanto estudante, licenciou-se em 1977 em Engenharia Química no Instituto Superior Técnico e ingressou na Universidade dos Açores como assistente. Em 1986 doutorou-se em Ciências Químicas, Química Orgânica, em Mississippi State University nos E.U.A. e pós doutorou-se em Química dos Produtos Naturais, em Washington State University, em 2001.

 Tem desenvolvido actividade científica em várias áreas, em particular, na Química dos Produtos Naturais, incluindo a estrutura de compostos bioativos de plantas, organismos marinhos e microorganismos dos Açores, aplicações da energia geotérmica na produção de plantas com actividade biológica e avaliação do estado de eutrofização das lagoas dos Açores.

 Sobre estes temas tem publicado relatórios, artigos científicos e livros, e apresentado comunicações em encontros, seminários, simpósios e congressos ao nível nacional e internacional.

 Desempenhou as funções de Pró-Reitor de 2001 a 2002, Vice-Reitor de 2002 a 2011 e de Reitor da Universidade dos Açores de 2011 a 2014.

 É Professor Catedrático desde 2004, tendo regido diversas disciplinas e orientado teses de mestrado e doutoramento. Recebeu o prémio "Graduate Student of the Department of Chemistry, Mississippi State University" em 1982 e pertenceu a várias sociedades honoríficas.